Trivela

Europa

Neste domingo, o Campeonato Grego foi palco de um episódio completamente lamentável. O presidente do PAOK, Ivan Savvidis, invadiu o gramado do Estádio Toumba armado. O ato boçal do greco-russo foi motivado depois que seu time teve um gol anulado, já durante os minutos finais do confronto decisivo com o AEK Atenas –  fundamental na briga entre os dois pela liderança. Desde então, o pandemônio tomou conta do país. As consequências sobre o futebol são claras. E podem também se refletir além das quatro linhas.

Nesta terça, Savvidis emitiu uma nota oficial sobre o ocorrido no domingo. “Quero pedir desculpas aos torcedores do PAOK, aos demais torcedores gregos e à comunidade global do futebol. Eu não tinha direito de entrar em campo desta maneira. Não tinha a intenção de confrontar qualquer um e claramente não ameacei ninguém. Meu único objetivo era proteger dezenas de milhares de torcedores do PAOK das provocações e brigas. Acreditem que eu não tinha intenção de começar uma briga com os adversários ou os árbitros. Infelizmente, minha família e eu fomos feitos reféns de um status quo doentio do futebol. Continuarei brigando por um futebol justo, arbitragens iguais e que tudo seja resolvido em campo, não nos tribunais”, escreveu. Uma tentativa tola de negar as próprias imagens.

O governo grego, por sua vez, suspendeu o campeonato por tempo indeterminado. O Ministro dos Esportes garantiu que as autoridades locais estão em negociações com as entidades internacionais para determinar novas condições para seguir em frente. Esperam colocar regras mais estritas à modalidade, de maneira emergencial. Não é a primeira vez que esse tipo de intervenção acontece na liga local – em incidentes que vão da violência nas arquibancadas à manipulação de resultados. Em 2016, por exemplo, a suspensão do campeonato se deu após as suspeitas de incêndio criminoso na casa do chefe de arbitragem. Não à toa, a própria federação grega passou um ano sob intervenção da Fifa e segue monitorada de perto.

As consequências ao PAOK, especificamente, também extrapolam as fronteiras. A Associação de Clubes Europeus (ECA) anunciou a suspensão provisória dos alvinegros. Uma ação mais contundente ainda será discutida no próximo encontro da entidade. Já a Fifa mantém a federação em sinal de alerta, afirmando que uma reforma é necessária imediatamente, “diante desta intolerável situação”. Caso entenda como necessário, a confederação pode banir clubes e a seleção grega das competições internacionais.

Enquanto isso, os dirigentes na própria Grécia tentam colocar panos quentes. A Super League afirmou que o congelamento da competição ameaça a existência dos clubes locais, garantindo que não há nada positivo nesta postura. “A suspensão cancela tudo o que vem sendo feito. Estamos nos distanciando dos nossos objetivos. Isso coloca em risco o esporte inteiro, além das consequências financeiras”, declarou o presidente da organização, Giorgos Stratos, após encontro com o Ministro dos Esportes.

O futuro do futebol é um ponto importante sobre a confusão no Estádio Toumba, mas não o único. Existem temores inclusive sobre a situação política na Grécia. Dono do PAOK desde 2012 e ex-parlamentar na Rússia, Savvidis possui diversos investimentos no norte da Grécia. O empresário tem companhias de mídia e de tabaco, hotéis, além de ser acionista do porto de Tessalônica. É visto como um salvador do principal clube da região. O que, no fim das contas, se reverte em atritos entre o norte e o sul do país, bem como entre diferentes correntes políticas.

Há quem acuse um “complô do poder central do sul” para prejudicar o PAOK, diante das confusões ocorridas nos jogos contra AEK Atenas e Olympiacos. Por outro lado, há quem veja um benefício do governo a Savvidis. A ajuda esportiva ao empresário seria interessante à Grécia, considerando seus investimentos em um momento econômico difícil do país. O próprio greco-russo elogiou publicamente o primeiro ministro Alexis Tsipiras, além de atacar o líder da oposição. E, em meio à esta troca de acusações, crescem nas arquibancadas movimentos radicais e até mesmo neo-nazistas.

No site Kathimerini, o jornalista Stavros Tzimas faz uma interessante análise neste sentido: “Essa é a primeira vez que vemos a política invadir os gramados a tal ponto desde o fim da junta militar nos anos 1970. Os agitadores têm muito a responder sobre a politização do hooliganismo e o crescimento da violência e da vulgaridade na política. Os eventos de domingo são apenas uma evidência. As arquibancadas de futebol sempre foram um terreno fértil, especialmente em períodos de crise, para o fanatismo e o nacionalismo extremo que se espalha pelas ruas e até mesmo por campos de batalha. A Grécia está à beira disso neste momento e esse tipo de divisão é a última coisa que o país precisa”.

Fato é que, independentemente do que for feito, o caos deverá imperar por mais algum tempo no Campeonato Grego. Inclusive se nada acontecer, agravando ainda mais a situação de desmandos que tanto atravanca o futebol local. É uma pena que uma temporada que deveria ser histórica, com PAOK e AEK Atenas na briga pelo fim da hegemonia do Olympiacos, seja mais lembrada pelos tumultos do que pelo esporte.

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