Trivela

Leste Europeu

A superioridade de Estrela Vermelha e Partizan Belgrado nos Bálcãs é incontestável. Grandes forças do antigo Campeonato Iugoslavo, se tornaram ainda mais hegemônicos com a divisão do país. Desde que as guerras de independência começaram, na década de 1990, a dupla de ferro da Sérvia só não conquistou uma edição do campeonato nacional. Façanha alcançada pelo Obilic, em 1997/98. Clube pequeno, mas tradicional de Belgrado, que chegou até a disputar as preliminares da Champions League. Entretanto, uma agremiação cheia de dicotomias, com papel contraditório dentro da própria história da região. E que, apenas 17 anos depois de sua grande glória, fechou as portas.

VEJA TAMBÉM: O jogo de futebol que escancarou a guerra na Iugoslávia completa 25 anos

A trajetória do Obilic é anterior à criação da Iugoslávia. Em 1924, quando o Leste Europeu se rearranjava após o fim do Império Austro-Húngaro, um grupo de jovens de Belgrado fundou o time, exaltando as raízes nacionalistas. O nome e o escudo fazem referência a Milos Obilic, herói mítico dos sérvios, que no Século XIV assassinou o sultão Murad I durante a invasão do Império Otomano sobre a região. Porém, embora figurasse na primeira divisão em seus primórdios, o Obilic acabou limitado aos níveis inferiores ao longo dos anos na Iugoslávia. Até que a guerra mudasse a sua história, esportiva e politicamente.

arkan

A reorganização do Campeonato Iugoslavo sem croatas, eslovenos ou bósnios ajudou na ascensão do Obilic. O time militava na divisão de acesso, quando acabou nas mãos de Zeljko Raznatovic, o Arkan. Procurado pela Interpol por assaltos a bancos na Europa Ocidental, Arkan voltou a Belgrado e se tornou um notável no Estrela Vermelha a partir dos anos 1980. Permaneceu por anos como líder da Delije, o temível grupo de ultras do clube. Esteve envolvido diretamente na briga com os Bad Blue Boys, do Dinamo Zagreb, em episódio visto por muitos como o estopim da Guerra da Iugoslávia. E também participou do conflito armado. Raznatovic formou o Arkan’s Tigers, grupo paramilitar composto por ultras que combateu pelos sérvios e foi responsável por diversos crimes de guerra, com a morte e sequestro de pessoas das outras etnias iugoslavas.

VEJA TAMBÉM: O dia em que um homem fez sérvios e croatas chorarem juntos em um estádio de futebol

O passado de Arkan não impediu que ele se tornasse dono do Obilic a partir de 1996. E a escolha não era ao acaso: o criminoso queria ser visto nacionalmente como Milos Obilic, aproximando-se da figura mítica através do futebol. Aproveitou também para mudar o uniforme para amarelo, em referência ao Arkan’s Tigers, assim como tornou o tigre um dos símbolos do clube. Com a fortuna que o novo dirigente havia feito às custas de seus crimes, o Obilic chegou à primeira divisão em 1997. Para logo na sequência conquistar o Campeonato Iugoslavo e ser vice da copa nacional.

Porém, nem só os investimentos de Arkan explicam o sucesso repentino do Obilic. Segundo Franklin Foer, autor do livro “Como o futebol explica o mundo”, as práticas terroristas também se mantinham no clube, como forma de intimidação – embora os membros da própria equipe neguem até hoje as práticas. Na publicação, Foer afirma que era comum que o próprio dirigente ou seus capangas ameaçassem os jogadores rivais, enquanto os árbitros eram escoltados por ele até os estádios. Já a torcida, composta basicamente pelos paramilitares, cantava músicas prometendo “quebrar as pernas dos adversários”. Corria o boato de que até mesmo Arkan invadia os vestiários dos outros times durante o intervalo. Por causa disso, o Estrela Vermelha sequer deixava o campo em seus jogos. E a tensão evidente abriu o caminho ao Obilic, que também se aproveitou do declínio dos dois gigantes nacionais e dos próprios conflitos que estouravam na Iugoslávia, com o início da Guerra do Kosovo.

File written by Adobe Photoshop¨ 4.0

Campeão nacional, o Obilic correu o risco de ficar fora da Liga dos Campeões em 1998/99. A Uefa ameaçou banir o clube diante das denúncias contra o dirigente. Então, ele renunciou ao cargo, mas não saiu de cena. Deixou a função com sua esposa, Ceca, uma famosa cantora sérvia. E tramou até mesmo o assassinato do presidente da Uefa, Lennart Johansson, o que não se concretizou. Porém, sem o terror, o clube não repetiu o sucesso na Champions. Após eliminar o IBV, da Islândia, antes de ser goleado pelo Bayern de Munique na segunda fase preliminar. Ainda teve o direito de entrar na Copa da Uefa, mas também não resistiu ao Atlético de Madrid.

VEJA TAMBÉM: Estrela Vermelha, a última glória de um país esfacelado

Mesmo no plano doméstico, o Obilic perdeu força graças à união dos outros clubes. Os presidentes dos demais participantes da primeira divisão se juntaram para lutar contra as intimidações de Arkan, que se tornaram menos frequentes. Como consequência, a equipe não passou do vice-campeonato em 1998/99. E, em 2000, o terrorista acabou assassinado. Entre as várias teorias sobre os tiros contra Arkan, algumas envolvem o Obilic. Uma delas afirma que o dirigente de outro clube, intimidado pelo paramilitar, contratou um assassino de aluguel para pôr fim à história. Já outra diz que foram os próprios sócios do Obilic que ordenaram o ato, irritados com a maneira como o dono do clube desviava os lucros para si.

Fato é que o Obilic ainda teve mais alguns sucessos na primeira divisão iugoslava, mesmo sem reconquistar o título. Sob a presidência de Ceca, permaneceu nas primeiras colocações, se classificando novamente à Copa da Uefa e à Copa Intertoto. Contudo, a viúva de Arkan também desviava recursos. E acabou presa em 2003, acusada de participar do assassinato de Zoran Dindic, primeiro-ministro reformista da Sérvia. Com a péssima administração e a falta de comando, a queda se tornou ainda mais evidente. Em 2005/06, o Obilic foi rebaixado no Campeonato Sérvio, na penúltima colocação. Para nunca mais voltar.

obilic

O Obilic despencou de maneira impressionante a partir de então. Em anos seguidos, terminou a temporada como lanterna na segunda, na terceira, na quarta e na quinta divisão. Níveis cada vez mais amadores para um clube praticamente falido. Em 2011/12, caiu ao sexto nível e chegou ao fundo do poço no sétimo, em 2012/13. Conquistou um custoso acesso há dois anos e ainda tentou um último suspiro na temporada passada, oitavo colocado entre os dez participantes na sexta divisão. Mas fechou as portas de seu time profissional de vez para a atual temporada.

O Obilic permanece vivo apenas nas categorias de base e no futebol feminino. O passado do último campeão iugoslavo além da dupla de ferro, agora, está limitado apenas aos livros – ou até que alguém resolva ressuscitá-lo. Põe fim à trajetória de um clube de 1990 anos, que teve o seu respeito na periferia de Belgrado. Mas que chegou só chegou ao topo a um custo que muitos sérvios querem esquecer.

A dica valiosa do post veio do leitor Alexandre Teixeira, o Megas, que também disponibilizou uma tabela com a evolução dos resultados do Obilic. Confira:

megas

Os comentários estão desativados.

Trivela

VOLTAR AO TOPO