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O profissionalismo faz 80 anos, mas só parcialmente

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12 de março de 2013 às 18:13

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Há exatos 80 anos, ser jogador de futebol se tornava profissão no Brasil. O amistoso entre São Paulo da Floresta e Santos inaugurou uma nova era no esporte do país. A goleada por 5 a 1 aplicada pelo time da capital e simbólico primeiro gol anotado por Arthur Friedenreich ficaram em segundo plano diante do marco que se estabeleceu em 12 de março de 1933.

Era a regulamentação de uma atividade que já movimentava bastante dinheiro, mas que mantinha seus lucros longe dos atletas. As elites lutavam pela manutenção do amadorismo, justificando que os jogadores de origem rica não precisavam de remuneração. Contudo, a popularização do esporte, tanto nas arquibancadas quanto dentro de campo, tornou a profissionalização uma consequência do processo.

Um primeiro sinal de abertura veio dez anos antes, quando o Vasco conquistou o Campeonato Carioca de 1923 com uma equipe composta por negros e operários. A quebra de uma barreira em um esporte considerado de elite e que, por isso mesmo, causou uma cisão liderada pelos clubes da zona sul. A recém-criada Amea (Associação Metropolitana de Esportes Athleticos) excluía trabalhadores braçais, analfabetos e desempregados de suas competições.

Ainda que ilegal, a prática do “profissionalismo marrom” tornou-se comum durante a década de 1920, garantindo o pagamento de gratificações aos jogadores vindos de classes populares. Os times ligados a fábricas cresciam, com os operários desfrutando de benefícios no emprego e recebendo os “bichos” em troca de vitórias.

Além disso, o profissionalismo legalizado na Argentina, no Uruguai e em países da Europa passou a atrair os principais talentos do futebol brasileiro. Leônidas da Silva, Domingos da Guia e Fausto foram os maiores expoentes da legião que debandou.

Essa vontade foi reforçada pelo discurso de Amilcar Barbuy, que passou por Corinthians e Palestra Itália antes de rumar à Lazio: “Cansei de ser amador no futebol onde essa condição há muito deixou de existir, maculada pelo regime hipócrita da gorjeta que dão aos seus jogadores, reservando-se para si o grosso das rendas. Os clubes enriqueceram e eu não tenho nada, sou um pária do futebol”, declarou, em depoimento a Floriano Correa no livro “Grandezas e misérias do nosso futebol”.

A eclosão do profissionalismo viria em janeiro de 1933, quando América, Bangu, Fluminense e Vasco criaram a Liga Carioca de Football (LCF), primeira organização profissional do futebol brasileiro. A atitude repercutiu em São Paulo, onde o debate do assunto já havia causado um racha na década anterior, mesmo que sem a alteração da situação dos jogadores.

Temendo a ida de seus atletas ao Rio de Janeiro, a Apea (Associação Paulista de Esportes Atléticos) alterou seus estatutos e seus sete clubes fundadores se profissionalizaram: Corinthians, Palestra Itália, Portuguesa, São Bento (da capital), São Paulo da Floresta e Ypiranga. Coube, então, a santistas e são-paulinos inaugurarem a nova era.

Na esteira do processo, LCF e Apea criaram o Torneio Rio-São Paulo, bem como a Federação Brasileira de Futebol. A adoção do profissionalismo trouxe a simpatia da Fifa, mas não da Confederação Brasileira de Desportos, que se manteve contrária as mudanças. Apenas em 1937 é que a entidade cederia às pressões, formalizando sua entrada no profissionalismo.

Profissional mesmo?

Oitenta anos depois da revolução, no entanto, fica difícil afirmar que o profissionalismo está totalmente enraizado no futebol brasileiro. As disparidades são imensas entre os jogadores dos grandes clubes e o restante dos futebolistas do país. Enquanto poucos ganham milhões, a maioria sofre com as faltas de condições no trabalho.

O desemprego não é incomum na profissão, como demonstra a excelente reportagem feita pelo Menon à Revista ESPN. Para tentar se desvencilhar de tal situação, alguns buscam outros empregos como ganho de vida. E, neste ponto, também cabe a discussão da falta de plano pessoal para quem tenta essa carreira. A estrutura do futebol não contempla a formação educacional do atleta ainda jovem, e ele é jogado à sorte se ficar sem contrato por algum tempo.

Outro problema é que o Brasil finge sustentar um futebol profissional, mas sustenta um calendário em que mais da metade dos times não tem certeza de que terá atividade – e, consequentemente, faturamento – o ano todo. Desse modo, mais da metade dos atletas profissionais tem emprego garantido por apenas quatro a seis meses por ano. Qualquer pessoa que fizer as contas perceberá que não é possível viver do futebol nesse cenário.

Essas coisas acontecem porque não é apenas na vida do atleta de clube pequeno que o profissionalismo é um conceito distante. O futebol brasileiro que se profissionalizou há 80 anos permaneceu muito parecido até poucos anos atrás. Foi preciso o fim da Lei do Passe e a necessidade de aumentar o faturamento que levou os grandes clubes a melhorarem suas estruturas diretivas.

O que era moderno e revolucionário em 1933 se tornou arcaico e retrógrado. Porque o profissionalismo de 80 anos atrás era pagar salários para recompensar merecidamente os melhores jogadores. O profissionalismo de hoje é mais complexo, e está sempre em mudança. Que os dirigentes brasileiros de hoje entendam isso, e não façam todos os que vieram depois daqueles da década de 1930.

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