Trivela

América do Sul

O Independiente Santa Fe voltou a ser um dos principais clubes da Colômbia nesta década. Encerrou um jejum de 37 anos sem o título nacional, acumulando três conquistas desde 2012. Mais do que isso, colocou o país no topo da Copa Sul-Americana em 2015 e também chegou às semifinais da Copa Libertadores. Ao Millonarios, restava festejar o título de 2012, que botou fim a uma longa seca de 24 anos, e conviver com o sucesso da metade albirroja de Bogotá. Até este domingo. Afinal, os Embajadores tiveram um gosto que os Cardenales nunca sentiram: o de conquistar a taça nacional bem em cima dos maiores rivais. Com o empate por 2 a 2 no Estádio El Campín, os Albiazules recuperaram a hegemonia local e faturaram o Torneio Finalización do Campeonato Colombiano.

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Na primeira final da história entre os rivais de Bogotá, o favoritismo podia pender um pouco ao Santa Fe. Os alvirrubros fizeram uma campanha melhor na fase de classificação e tinham o direito de disputar a segunda partida da decisão como mandantes, garantindo assim a torcida a seu favor. Além disso, a experiência de quem vinha para a quinta final do Colombianão disputada nos últimos cinco anos favorecia os Cardenales. Dentro de campo, contudo, o Millonarios soube prevalecer. No primeiro jogo, diante da massa azul, garantiu a vitória por 1 a 0. Resultado fundamental pensando no desdobramento do reencontro, com o empate a seu favor.

Precisando tomar a iniciativa, o Santa Fe saiu em vantagem. Aos 18 minutos, Wilson Morelo abriu o placar aos anfitriões, cobrando pênalti. Depois de alguns sustos, o Millonarios daria sua resposta no início do segundo tempo, aos 10, com o capitão Andrés Cavidad anotando de cabeça. Todavia, a pressão era dos albirrojos, insistindo na bola aérea. E aos 38, quando o time resolver jogar pelo chão, Morelo reapareceria para retomar a dianteira aos Cardinales. Naquele momento, a disputa de pênaltis parecia inescapável aos Embajadores. Mas Henry Rojas, que acabara de sair do banco, demarcou a alegria de sua equipe. O meio-campista acertou um chutaço de canhota, decretando o empate por 2 a 2 aos 40. Durante os minutos finais, coube aos visitantes segurarem os rivais para poderem comemorar. Um título com um gosto bastante especial, celebrado diante da multidão vermelha no Campín.

Maior campeão nacional até dois anos atrás, o Millonarios encostou no Atlético Nacional na tabela histórica. Os Verdolagas possuem 16 taças do Campeonato Colombiano, uma a mais que os Embajadores. E ainda que as glórias sejam muito mais raras do que os períodos áureos vividos no lado azul de Bogotá, a recuperação da força nacional significa bastante à torcida. É mais um sinal concreto do renascimento do clube.

As dificuldades econômicas vêm desde a virada para a década de 1980, quando os albiazules precisaram vender alguns de seus principais jogadores. A sustentação, então, veio com o dinheiro do narcotráfico, oferecido principalmente por Gonzalo Rodríguez Gacha, conhecido com ‘El Mexicano’. A morte do criminoso e de outros traficantes envolvidos com o clube levou o Millonarios ao franco declínio nos anos 1990, até que o fundo do poço chegasse em 2003. Por conta da dívida enorme, a agremiação entrou em concordata, sofreu a intervenção do governo e precisou atuar com os juvenis. A luta pela sobrevivência se manteve nos anos seguintes, até o estabelecimento de uma sociedade anônima, com a venda de ações, evitasse a quebra dos Embajadores em 2010. A partir de então, o time da capital voltou ao topo do pódio. Ainda assim, os débitos continuam consideráveis, a ponto de determinarem,  em março deste ano, a chegada de um novo acionista majoritário dentro do conjunto de credores.

A retomada econômica do Millonarios, de qualquer forma, não isenta o clube das crises esportivas. E, embora quase sempre se metam nos mata-matas, os albiazules não vinham sendo copeiros o suficiente nas últimas edições do Campeonato Colombiano. A final anterior havia sido justamente a disputada no Finalización de 2012. Neste ano, uma mudança fundamental aconteceu no banco de reservas. Mesmo contando com o respaldo da diretoria, Diego Cocca pediu demissão para retornar ao Racing. Antigo ídolo do Estudiantes e treinador bastante rodado, Miguel Ángel Russo assumiu o fardo. Levou o time às semifinais do Apertura, caindo para o Atlético Nacional, antes de viver o júbilo no Finalización.

Mas mesmo a campanha neste segundo semestre possui os seus percalços. O Millonarios chegou a ocupar o 11° lugar na fase de classificação em meados de setembro, gerando críticas a Russo e vaias insistentes ao presidente. O ponto baixo aconteceu em um clássico contra o Atlético Nacional, quando Dayro Moreno determinou o triunfo dos Verdolagas aos 49 do segundo tempo. A partir de então, os albiazules não perderam mais. Arrancaram para terminar a primeira fase na quarta colocação e se garantirem nos mata-matas. Depois de eliminarem La Equidad e América de Cali, veio a consagração ante o Santa Fe.

Russo é visto como grande artífice da conquista, por arrancar o melhor de um elenco homogêneo, sem grandes estrelas como outros concorrentes. Formou uma equipe sólida na defesa e de ataques rápidos, especialmente pelos lados do campo. O goleiro Nicolás Vikonis foi um dos principais esteios defensivos, especialmente por sua participação decisiva nos mata-matas, assim como o experiente zagueiro Andrés Cavidad. No meio, David Silva e John Duque também compuseram a espinha dorsal. Já no ataque, os principais encarregados dos gols foram Duvier Riascos, retomando a carreira no país-natal após muito rodar no Brasil, e o artilheiro Ayron del Valle, autor de 16 gols ao longo da campanha. Nomes importantes, mas longe da fama vista em Junior de Barranquilla e Atlético Nacional, por exemplo.

Para a Libertadores, o Millonarios já sabe que terá ao menos um ótimo reforço: o goleiro Wuilker Fariñez, grande destaque da seleção venezuelana na reta final das Eliminatórias. Também discute-se a vinda do atacante Roberto Ovelar, sem espaço no Junior. E os albiazules têm consciência de que a necessidade de investir é considerável. A temporada não foi boa para os clubes colombianos em geral, em campanhas modestas na Libertadores 2017. Além disso, em suas duas últimas aparições continentais, os Embajadores ficaram devendo: acabaram no último lugar de seu grupo em 2013, antes de sucumbirem ao Atlético Paranaense nas preliminares do ano passado.

Independentemente do que se planeja ao futuro próximo, este é o momento de festejar. E Bogotá atravessou uma noite azul durante as últimas horas. Os torcedores do Millonarios, que encheram o Parque Simon Bolívar, celebraram de maneira ensandecida o apito final no Campín. Puderam extravasar não apenas pela conquista do título, mas também por deflagrarem a tristeza nos maiores rivais. Não haveria uma melhor oportunidade de reviver a glória do que esta, em pleno clássico.

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