Trivela

Copa do Mundo

Gales e Escócia fariam um jogo importantíssimo em 10 de setembro de 1985. Mais do que um clássico entre britânicos, o duelo em Cardiff também valia muito na luta por uma vaga na Copa do Mundo de 1986. O vencedor teria a chance de, pelo menos, disputar a repescagem nas Eliminatórias. E a tensão nas arquibancadas ia muito além da decisão em campo. Afinal, o Reino Unido vivia uma escalada de violência nos estádios, sobretudo após o desastre de Heysel, meses antes. Aquela noite poderia ser a faísca para outro episódio de hooliganismo com grandes consequências.

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No olho do furacão estava Jock Stein. O experiente técnico da seleção escocesa não vivia boa fase. Vinha sendo muito criticado por causa dos resultados ruins, especialmente a derrota para os galeses em Glasgow. E teria que se virar na decisão de Cardiff sem quatro nomes importantes de seu time, entre eles Graeme Souness e Kenny Dalglish, desfalques por lesão ou suspensão. Como se não bastassem os problemas, Stein resolveu se meter na discussão extracampo. Vociferou os seus temores de que, diante de qualquer incidente com os torcedores, o governo de Margaret Thatcher resolvesse interferir e reprimir o futebol. Tudo isso em um momento delicado de sua vida, tomando remédios por conta de uma insuficiência cardíaca.

Na preparação ao jogo, Stein preferiu parar de se medicar. Temia que os efeitos colaterais dos diuréticos atrapalhassem o seu trabalho, queria se manter totalmente concentrado. E, assim, partiu para a noite fatídica. Gales possuía um bom time, liderado por Ian Rush, Mark Hughes e Neville Southall. A seleção da casa precisou de apenas 13 minutos para abrir o placar. E quase ampliou antes do intervalo, aproveitando os erros do goleiro Jim Leighton, que havia perdido uma das lentes de contato – o que deixou o treinador furioso e o obrigou a queimar uma substituição na volta para o segundo tempo. Aos 36 minutos da etapa final, a Escócia teve um pênalti marcado a seu favor. Davie Cooper converteu, buscando o empate que já dava a classificação ao seu país. Enquanto todos no time comemoravam efusivamente, Stein permanecia estático.

Não era apenas autocontrole do técnico. Sua palidez indicava que nem tudo estava bem. Aos 43 do segundo tempo, o árbitro apitou uma falta. Talvez confuso pelo mal-estar, ele achou que já era o apito final, e saiu em direção ao banco galês para cumprimentar os rivais. Não chegou até lá. Jock Stein caiu no gramado, sofrendo um ataque. Enquanto o jogo seguia para os últimos instantes, o comandante era atendido pela equipe médica nos vestiários. Os escoceses nem puderam comemorar. Quando ele parecia se recuperar, sua crise se agravou. Cerca de meia hora depois do apito final, Stein faleceu em decorrência de um edema pulmonar causado pela insuficiência cardíaca.

Superada pela Espanha na liderança do grupo, a Escócia teve que disputar a repescagem das Eliminatórias, na qual eliminou a Austrália. Mas não fez uma grande campanha na Copa 1986, caindo logo na primeira fase em um grupo dificílimo, após ser derrotada por Dinamarca e Alemanha Ocidental, além de empatar com o Uruguai. Nada reparava, porém, a perda maior que o país tinha sofrido contra Gales. A partida da mente mais brilhante do futebol escocês.

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Ex-operário em minas de carvão e zagueiro de carreira respeitada, Stein iniciou sua fama como o técnico guiando o Dunfermline ao título inédito da Copa da Escócia, antes de encerrar o jejum de dez anos sem taças do Hibernian. Já em 1965, chegou ao Celtic, o clube do qual tinha sido capitão e no qual pendurara as chuteiras, para fazer história. Em 13 anos à frente da equipe, conquistou 24 títulos nacionais, sendo 10 Campeonatos Escoceses. Contudo, seu grande feito veio fora do país, com a conquista da Champions em 1967. Contando com um elenco recheado de pratas da casa, o Celtic eliminou Zürich, Nantes, Vojvodina e Dukla Praga até chegar à final. Já na decisão, venceu de virada a poderosa Internazionale de Helenio Herrera, então bicampeã continental. Nascia ali o mito dos “Leões de Lisboa”, que superaram o catenaccio nerazzurro com um gol aos 39 do segundo tempo. O técnico se tornava um herói eterno dos alviverdes.

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Jock Stein deixou o Celtic em 1978. Logo depois, teve uma breve passagem pelo Leeds United. Exatamente como Brian Clough, deixou o clube após 44 dias no cargo, mas sem problemas de relacionamento: seu objetivo era treinar a seleção escocesa. Com uma geração de muita qualidade, que decepcionou na Copa de 1978, o treinador classificou o país para o Mundial seguinte, mas não passou de fase em uma chave que também tinha Brasil, União Soviética e Nova Zelândia. Também não conseguiu a classificação nas duas edições da Eurocopa que atravessou. Até a derradeira campanha nas Eliminatórias de 1986.

O trabalho de Stein à frente da Escócia nunca teve conclusão. Mas, em compensação, o técnico de 62 anos preparou muito bem o seu herdeiro. Alex Ferguson começava a despontar no comando do Aberdeen e acabou se tornando assistente na seleção. “Eu tenho orgulho de dizer que conheci Jock Stein como técnico, colega e amigo. Ele foi o maior de todos no futebol britânico. Homens como ele viverão para sempre na memória. Era muito inteligente, especialmente no trato com a imprensa. Para pessoas como eu, ele foi o precursor de todos os feitos e desafios, era preciso mirar Big Jock. Ele nunca tomava um elogio a si mesmo, sempre se preocupava com os jogadores e a grandeza do time. Ao final dos jogos, ele me dizia para manter a dignidade. Era humilde e sempre teve os pés firmes no chão”, declarou a lenda do Manchester United sobre seu mentor.

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Foi Ferguson quem assumiu o comando da seleção escocesa na repescagem e na Copa de 1986, mas não seguiu no cargo depois disso. Partiu logo depois para escrever sua história em Old Trafford. Assim como os compatriotas Matt Busby e Bill Shankly, o treinador se tornou unanimidade na Inglaterra. Três dos maiores técnicos escoceses da história, mas que não se comparam a Jock Stein em um aspecto: a maneira como ele levou o próprio futebol escocês a triunfar além de suas fronteiras. Um gênio que vivia e respirava o esporte. E representou toda a entrega de seu trabalho ao morrer por ele.

Quando o pênalti aconteceu, Jock não disse uma palavra. Pouco depois, o grande homem seguiu em direção a Mike England, técnico de Gales. Mas, quando ia, tropeçou. Seguraram quando começou a cair. Os médicos saíram do túnel e eu o ajudei até que fosse levado para dentro.

Após a partida, quando eu saí para dar a coletiva, vi que Souness estava chorando. “Acho que ele se foi”. Eu não podia acreditar.

Quando saíamos no ônibus, havia milhares de torcedores do lado de fora. A tristeza silenciosa na atmosfera era inesquecível. A memória permanente é a de um silêncio solene. Era como se o rei tivesse morrido. E, para o futebol, o rei tinha mesmo morrido.

Alex Ferguson, sobre o dia em que Jock Stein faleceu

Como leitura complementar, vale conferir o texto “Leões de Lisboa: A história do Celtic campeão europeu de 1967”, escrito pelo amigo Felipe Portes no site Todo Futebol.

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