Trivela

Copa do Mundo

Mario Mandzukic tinha 22 anos quando anotou o seu primeiro gol pela seleção croata, em setembro de 2008. O que deveria ser uma ocasião memorável a ele, no entanto, terminou como uma lembrança pouco grata. Em sua segunda partida pela equipe nacional, o centroavante saiu do banco para substituir Ivica Olic. Entrava aos 28 minutos do segundo tempo, em duelo contra a Inglaterra, no qual o seu time perdia por 3 a 0 e ainda tinha um jogador a menos. O novato precisou de apenas cinco minutos em campo para balançar as redes, aproveitando o cruzamento de Darijo Srna. No entanto, viu os ingleses ampliarem a goleada por 4 a 1. No reencontro com os ingleses, em Wembley, o jovem foi titular pela primeira vez com a camisa quadriculada. Os croatas foram goleados por 5 a 1, em resultado que praticamente tirou as chances do país de se classificar à Copa de 2010. A Inglaterra ficou com a vaga direta no Grupo 6 das Eliminatórias, enquanto a Ucrânia seguiu a repescagem. Em terceiro, a Croácia viu ao Mundial de casa.

Muito aconteceu a Mandzukic durante os últimos dez anos. Tornou-se uma das grandes referências da seleção croata. Se Luka Modric e Ivan Rakitic dominam o meio-campo, a mesma certeza se compartilha com aquele que comanda o ataque. Raríssimos foram os jogos ao longo desta década em que o centroavante não atuou. Esperaria por seu grande momento nesta quarta, em Moscou, no primeiro encontro com a Inglaterra desde as duas goleadas nas Eliminatórias da Copa de 2010. Situação bem diferente, um gol do camisa 17 poderia colocar a Croácia na decisão do Mundial de 2018. Justamente o que aconteceu. Uma bola que sobrou dentro da área e o matador não perdoou. Garantiu a vitória por 2 a 1 na prorrogação, provando-se não apenas como um atacante decisivo, mas também como um dos maiores da história do futebol croata. É preciso respeitar tudo o que o veterano construiu em sua carreira.

Assim como tantos outros jogadores da Croácia, Mandzukic teve que lidar com as consequências da Guerra da Iugoslávia logo na infância. Nascido em 1986, ele migrou com os seus pais para a Alemanha em 1992, fugindo dos horrores do conflitos. “Para mim, era uma questão de estar seguro com minha família. Pessoas eram mortas na porta de nossa casa, não podíamos esperar. Não tínhamos muito dinheiro na Alemanha, mas vivíamos sem o medo constante”, contou o atacante, em entrevista ao site Spox, concedida em 2013. Na nova nação, encontrou no futebol um refúgio ao que tinha deixado para trás e começou a aprimorar suas qualidades. O garoto jogava no Ditzingen, um clube localizado próximo a Stuttgart. A equipe o ajudou a se integrar à nova comunidade e a aprender a língua local.

A família de Mandzukic viveu na Alemanha até 1996. O visto de residência venceu e eles tiveram que retornar à Croácia, que reconstruía-se. Viveriam novamente em Slavonski Brod, cidadezinha de 60 mil habitantes na fronteira com a Bósnia Herzegovina, onde o guri nasceu. Apesar de sentir a despedida dos velhos amigos, o garoto de 10 anos se reencontrou com o futebol. Passou a integrar as categorias de base do Marsonia, clube que variava entre as primeiras divisões do Campeonato Croata. E quando tinha 12 anos, Mario pôde sonhar ao ver aquela camisa quadriculada. Acompanhou a epopeia da seleção croata rumo às semifinais da Copa de 1998. Havia, de qualquer forma, um exemplo mais próximo. No próprio Marsonia, despontava um jovem sete anos mais velho, que passou a dar conselhos ao menino. Seu nome? Ivica Olic, que logo arrumaria as malas para a Internazionale.

Mandzukic permaneceu no Marsonia até 2005, depois de disputar sua primeira temporada com a equipe principal. Transferiu-se para o NK Zagreb, time secundário da capital. E quando estourou na equipe, recebia as instruções de outro personagem histórico ao futebol croata: Miroslav Blazevic, técnico da equipe nacional de 1994 a 2000 e comandante rumo ao terceiro lugar na Copa de 1998, treinava o clube na época. Do veterano, aliás, o prodígio ganhou um apelido bastante sugestivo: “Djilkos”, que significa matador. O atacante pôde atingir seu máximo e integrar as seleções de base, até que ficasse muito grande ao NK. Em meados de 2007, rumou ao Dinamo Zagreb, contratado para ser o substituto de Eduardo da Silva. Deslanchando no clube para o qual torcia na infância, logo ganhou a primeira convocação à seleção principal, em novembro de 2007.

As coisas aconteceram rápido para Mandzukic a partir de então. Virou ídolo, artilheiro e capitão do Dinamo. Em 2010, acertou sua transferência ao Wolfsburg, a princípio coadjuvante de Edin Dzeko e Grafite, mas logo se tornando estrela da companhia. Os bons serviços prestados aos Lobos atraíram o interesse do Bayern de Munique, onde se tornou importante. Na primeira temporada na Baviera, o centroavante conquistou a tríplice coroa sob as ordens de Jupp Heynckes. Anotou apenas três gols na Champions, mas teve papel fundamental para superar Arsenal e Juventus nos mata-matas, além de abrir o placar na decisão contra o Borussia Dortmund, aproveitando jogada de Arjen Robben. Em Wembley, ergueu sua principal taça.

A chegada de Pep Guardiola minou o espaço de Mandzukic no Bayern. E quando poderia se tornar um protagonista no Atlético de Madrid, não vingou. Assim, seu reinício aconteceria na Juventus. Não virou o centroavante que muitos esperavam. Em compensação, tornou-se uma peça vital no esquema de Massimiliano Allegri, extremamente funcional como ponta esquerda – a posição em que, afinal, viveu ótimos momentos no Dinamo Zagreb e também no Wolfsburg. Mais importante que os números, aliás, é a maneira como o camisa 17 permaneceu decisivo. Jogou muita bola na semifinal da Champions em 2016/17, anotando um dos gols da classificação contra o Monaco. Apesar da pintura na decisão contra o Real Madrid, precisou amargar o vice-campeonato continental desta vez. Por pouco o heroísmo não se repetiu em 2018, mas os dois tentos nas quartas de final contra os merengues foram insuficientes.

Se nos clubes Mandzukic viveu altos e baixos ao longo de sua ascensão, na seleção é imprescindível desde 2009. Depois de ajudar os alvirrubros a se classificarem à Euro 2012, foi um dos poucos a se salvarem na fase final do torneio. Balançou as redes três vezes na competição, duas contra a Irlanda e uma contra a Itália, mas os quatro pontos se tornaram insuficientes em chave que ainda tinha a campeã Espanha. Depois, voltaria a brilhar nas Eliminatórias da Copa de 2014, inclusive anotando o seu na repescagem contra a Islândia. Uma expulsão no último jogo, porém, o tirou da estreia do Mundial contra o Brasil. Mesmo balançando as redes duas vezes contra Camarões, se frustraria com outra queda precoce. E não seria tão diferente assim na Euro 2016, na qual a Croácia fez ótima campanha na fase de grupos, mas sucumbiu nas oitavas diante de Portugal.

Aos 32 anos, Mandzukic teria uma das últimas oportunidades da carreira na seleção rumo à Copa de 2018. Mais uma vez, colocou-se como um dos principais nomes da Croácia. Anotou gols importantes nas Eliminatórias, que valeram a vaga na repescagem. Lesionado, precisou ver do banco de reservas a goleada por 4 a 1 sobre a Grécia, que encaminhou a classificação. Depois, estaria em campo para confirmar a presença na Rússia, graças o empate por 0 a 0. A boa fase com a Juventus, inclusive, impulsionava a sua forma na equipe nacional. A sua influência sobre o grupo é enorme, até pela maneira como se entrega em campo, longe de se sugerir uma estrela.

Dentro das variações táticas que a Croácia realiza na Copa do Mundo, Mandzukic é um ponto de confiança. Jogou como centroavante isolado, compartilhou a linha de frente com Andrej Kramaric, caiu pelos lados do campo tantas vezes. Contra a Dinamarca, foi dele o gol que deu o empate instantâneo no início do duelo, aproveitando uma sobra dentro da área. Contra a Rússia, ofereceu uma baita assistência para Kramaric garantir o empate no tempo normal, buscando o jogo pela esquerda e arrancando até cruzar na medida ao companheiro. Contra a Inglaterra, terminou como o grande salvador.

Mandzukic não fez sua melhor partida no Luzhniki. Durante boa parte do tempo, esteve apagado. Em compensação, fez um de seus jogos mais entregues. Brigou por todos os lados do campo, caiu para as pontas, voltou para o meio ajudando a armar, pressionou a saída de bola dos adversários. Se Ante Rebic e Ivan Perisic apareceram tanto, contaram com a ajuda do abnegado centroavante. E nos momentos decisivos, o camisa 17 apareceria dentro da área. Quase decidiu no tempo normal, em passe precioso de Marcelo Brozovic, parando em boa defesa de Jordan Pickford. Seu segundo encontro com o goleiro aconteceu no primeiro tempo da prorrogação, a partir de passe de Ivan Perisic, saindo de frente para o gol. Encheu o pé, mas o inglês fez milagre. Pior, no choque entre os dois, o veterano sentia dores no joelho. Saiu mancando, atendido pelos médicos.

Apesar das dores, Mandzukic seguiu para o segundo tempo da prorrogação. Talvez fosse mesmo o seu destino. Em uma tentativa de ataque, chegou a manquitolar e até pareceu desistir do lance. Mas a jogada continuou. Perisic ajeitou de cabeça. E, dentro da área, poucos sabem tão bem como decidir em um átimo de raciocínio. O centroavante tomou à frente de John Stones e desferiu o chute de primeira. O golpe fatal, que mais uma vez balançava as redes da Inglaterra, depois de quase dez anos. Agora, não para descontar uma vergonhosa goleada diante de sua torcida em Zagreb, e sim para causar orgulho em todo o seu povo, rumo à final.

Mandzukic tentaria lutar mais um pouco. Esforçaria-se por minutos na terceira prorrogação nesta Copa, até as dores pesarem e ele ser substituído. Com a classificação consumada, todavia, nada o continha. Entrou em campo com uma bandeira na qual se via escrito “Slavonski Brod”, o nome de sua cidade natal. Pôde abraçar novamente Ivica Olic, seu companheiro de ataque na Copa de 2014, agora assistente da seleção e ainda conselheiro do amigo de adolescência. Certamente recebeu os aplausos Miroslav Blazevic, hoje com 83 anos. O pupilo superou o feito alcançado pelo mentor há 20 anos.

Mandzukic não é o melhor atacante do mundo, mas é um dos mais esforçados. Um dos mais entregues. É uma característica de seu jogo, um traço de seu caráter e uma marca de sua vida. “Eu foco no meu trabalho e não deixo nada negativo me afetar. Acredito em mim, mas isso não quer dizer que me acho o melhor. Eu apenas sei que posso fazer tudo, se me mantiver calmo. Não me importo se meu nome é falado. Eu jogo porque trabalho duro e faço o meu serviço”, declarou em 2013. Um tanto quanto subestimado, ainda assim decisivo. Poucos são aqueles com tantos tentos importantes em Copas do Mundo ou Liga dos Campeões.

Com o tento sobre a Inglaterra, Mandzukic soma 31 gols pela seleção. Apenas Davor Suker está à sua frente. Além disso, são 87 jogos, marca que o torna o nono que mais vezes atuou pelo país, atrás apenas de Luka Modric, Vedran Corluka e Ivan Rakitic entre os atletas ainda em atividade. Números que sustentam a grandeza do camisa 17 pela Croácia. Todavia, a emoção que proporcionou nesta quarta-feira é algo único. É o que o eterniza como um grande ídolo. Como um herói nacional e um personagem marcante também às Copas. Seu poder de decisão assegura um finalista inédito.

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