Trivela

América do Sul

A final da Copa Sul-Americana entre Junior de Barranquilla e Atlético Paranaense possui o seu paralelo na literatura. Afinal, ambos os clubes podem encher o peito para dizer que dois escritores aclamados são seus eternos torcedores. Gabriel García Márquez sempre valorizou a cultura e as raízes do Caribe Colombiano. Assim, não manteve-se alheio à paixão popular, especialmente através do Tiburón. Paulo Leminski, por sua vez, assumia o “coração atleticano e o pavilhão rubro-negro”. Inclusive, chegou a ser vizinho da Baixada por um tempo. Em diferentes intensidades, os dois ilustres deixaram seu legado às instituições.

Gabo teve o seu primeiro contato com o futebol quando era criança. Em Aracataca, sua cidade natal, o pequeno goleiro voava para agarrar bolas de pano. Deixou o esporte de lado e, quando já morava em Barranquilla, um médico recomendou ao estudante que praticasse a modalidade por questões de saúde. O garoto cumpriu a receita e jogava como zagueiro, mas desistiu depois de receber uma fortíssima bolada no estômago. Pegou certo trauma e recebeu o apelido de ‘viejo’ entre seus amigos, por não os acompanhar nas peladas. O que, ainda assim, não o impediu de viver a paixão nas arquibancadas. Transitando por diferentes cidades do Caribe Colombiano, o jovem de olhar aguçado captava as particularidades do povo. E assim seria com o futebol, em uma época na qual já trabalhava como jornalista em Barranquilla, no periódico El Heraldo.

Gabo tinha 23 anos quando visitou o Estádio Romelio Martínez em sua mais famosa jornada. Estava ali para acompanhar um jogo contra o Millonarios, estrelado por Alfredo Di Stéfano – em pleno El Dorado Colombiano, momento histórico no qual a liga local era recheada de craques. Assistiu à vitória do Junior e se maravilhou, sobretudo com Heleno de Freitas, referência dos tiburones naquela época. Em junho de 1950, publicou a crônica ‘O Juramento’,  uma pérola que traduz como um iniciante acaba absorvido pela atmosfera ensandecida. A partir de então, passou a frequentar as tribunas. Virou amigo de Rigoberto Memuerde García, atacante dos alvirrubros. Deu uma pitada de seu mundo fantástico ainda a outros artigos sobre o esporte.

“O mau é que as coisas têm o seu avesso. E depois daquele espetacular triunfo, depois que o autor dessas linhas se declarou de público e por escrito partidário absoluto e por todos os séculos do Atlético Junior, os membros desta equipe passaram sistematicamente a dedicar-se à tarefa de demonstrar todos os domingos à tarde que não compartilham do entusiasmo de sua torcida. Tinha-se a impressão de que os piores adversários do Júnior eram os 11 homens que vestiam a camisa vermelha e branca. Por mais que a galera aplaudisse, por mais que a torcida gritasse até ficar rouca, os Monumentos mostravam-se dispostos a provar no gramado, todos os domingos, que não estavam de acordo com os seus torcedores”, escreveu em ‘A Crônica Anual’, em que aborda as suas desventuras como torcedor diante da má fase do Tiburón.

O futebol é menos presente na obra de García Márquez do que os aficionados gostariam. Há alguns perfis de jogadores que ele escreveu no semanário ‘Crónica’, durante o El Dorado, além de outras linhas dedicadas ao esporte nas décadas seguintes. Mesmo assim, continuou acompanhando a modalidade, visitando estádios em suas andanças pelo mundo. E não seria ele a se distanciar da febre de futebol que tomou a Colômbia no início dos anos 1990, fruto da empolgação causada pela seleção cafetera.

“O futebol colombiano tem um selo latino-americano, e isso é muito importante, porque precisamos de personalidade também no futebol. No entanto, esse futebol tem uma desvantagem: é pouco goleador, e as partidas se ganham com gols. Mas creio que é algo fácil de se corrigir. Além do mais, há uma coisa que permanece como troféu à seleção colombiana: é a forma como desorganizou a maquinaria alemã. Houve um momento em que os alemães corriam como galinhas em campo, sem saber o que estava acontecendo, porque enfrentavam a realidade de uma equipe de loucos, coisa que não creio que se encaixa num cérebro tão computadorizado como o alemão. Isso para mim foi um grande orgulho nacional”, escreveu em 1991, um ano depois do empate com a Alemanha na Copa de 90.

Quatro anos depois, Gabo chegou a apostar uma Mercedes-Benz com seu amigo chileno Danilo Bartulin, garantindo que os colombianos faturariam a Copa de 94. Reconheceria posteriormente que seu encantamento com a seleção se esvaiu diante da campanha decepcionante nos Estados Unidos. Avaliou que seus compatriotas entraram em campo já derrotados. Mas ofereceria novas palavras, perante as consequências trágicas, após a morte do zagueiro Andrés Escobar. O torcedor do Junior faleceu em abril de 2014, antes que o sucesso do time de José Pékerman no Mundial do Brasil pudesse fazê-lo mudar de ideia sobre os cafeteros.

Paulo Leminski era menos ligado no esporte que Gabriel García Márquez. Sequer pôde acompanhar aquela sensação provocada pela seleção colombiana, falecido em 1989. Mas ao longo de sua vida pulsou o coração rubro-negro. Afinal, o ácido poeta não gostava exatamente do futebol. Segundo relatos de seus amigos, gostava mesmo era do Furacão. “Sempre cantando o hino do Furacão, com vigor sem jaça, o polaco nos legou o sangue forte, porque rubro-negro é quem tem raça, pode cantar com orgulho a galera da Baixada”, escreveu Dante Mendonça, em texto de 2007 sobre a relação do curitibano com o futebol.

“Na verdade, Leminski não gostava de futebol. Deve ser por isso que ele era atleticano. (Risos) Mas sempre que o Atlético perdia, lembro bem, ele chegava na agência de propaganda onde trabalhávamos se lamentando. E isso era quase sempre, dava até pena, porque o Atlético daquela época era freguês do Alto da Glória”, contou o coxa-branca Luiz Antônio Solda, cartunista e amigo do poeta, a Dante Mendonça. Ex-presidente do Paraná Clube, Ernani Buchmann classificou o polaco como um ‘atleticano light’ no mesmo artigo. E foi a ele que o escritor dedicou algumas raras linhas sobre o esporte, em ‘Pênalti para Nani’ – presente no livro ‘Não fosse isto E era menos Não fosse tanto E era quase’, de 1980. Confira:

quero a vitória
                        do time de várzea

valente             

covarde           

             a derrota   
               do campeão

5×0                    
                               em seu próprio chão

                                               circo
                                               dentro
                                               do pão

Seria em 1985, entretanto, que Paulo Leminski escreveu seu texto boleiro mais famoso. Não um poema, e sim uma crônica sobre o Coritiba campeão brasileiro em 1985. Exatamente isso: um reconhecimento aos rivais. “Hoje, quinta-feira, 1° de agosto, em Curitiba, o céu amanheceu branco e verde. Os passarinhos só diziam: Lela, Lela, Rafael, Rafael. E no ar pairava um forte cheiro de pólvora de foguete e pó-de-arroz. Nada mais me restava a não ser filosofar: ‘Não se pode ganhar sempre’. E, guiado por meu atrapalhado coração atleticano, fui até o mastro no meu jardim onde tremula o pavilhão rubro-negro e fiz descer a bandeira de meus sonhos. E foi com um misto de pesar e júbilo que pus em seu lugar e hasteei as campeoníssimas cores do nosso arquiadversário, hoje, aqui e agora, para sempre Campeão Brasileiro de 1985″, divaga na introdução de ‘Uma declaração alviverde (por um poeta atleticano)’.

Uma pena imaginar o que não poderia ter vindo da mente de Leminski em 2001, quando o Atlético Paranaense repetiu o feito do Coritiba e conquistou o Campeonato Brasileiro. Ou então neste 2018, do polaco ou de Gabo, numa final fulgurante de Copa Sul-Americana. Certo é que os torcedores célebres seguem instigando seus companheiros de paixão. Em prosa ou poesia, alimentam o imaginário.

Para complementar a leitura, vale se deliciar com o talento dos craques:

TRIVELA: ‘Crónica Viva’, de García Márquez
CENTRO GABO: 10 frases de García Márquez sobre futebol
LITERATURA NA ARQUIBANCADA: O texto de Leminski ao Coritiba
VELHO CRONISTA: Poesias de Leminski adaptadas ao futebol

Por fim, também o trecho principal de ‘El Juramento’, o mais famoso texto de García Márquez sobre o futebol. Mantivemos o original para não perder a magia da pena de Gabo.

“Y entonces resolví asistir al estadio. Como era un encuentro más sonado que todos los anteriores, tuve que irme temprano. Confieso que nunca en mi vida he llegado tan temprano a ninguna parte y que de ninguna tampoco he salido tan agotado.

Alfonso y Germán no tomaron nunca la iniciativa de convertirme a esa religión dominical del fútbol, con todo y que ellos debieron sospechar que alguna vez me iba a convertir en ese energúmeno, limpio de cualquier barniz que pueda ser considerado como el último rastro de civilización, que fui ayer en las graderías del municipal. El primer instante de lucidez en que caí en la cuenta de que estaba convertido en un hincha intempestivo, fue cuando advertí que durante toda mi vida había tenido algo de que muchas veces me había ufanado y que ayer me estorbaba de una manera inaceptable: el sentido del ridículo. Ahora me explico por qué esos caballeros habitualmente tan almidonados, se sienten como un calamar en su tinta cuando se colocan, con todas las de la ley, su gorrita a varios colores.

Es que con ese solo gesto, quedan automáticamente convertidos en otras personas, como si la gorrita no fuera sino el uniforme de una nueva personalidad. No sé si mi matrícula de hincha esté todavía demasiado fresca para permitirme ciertas observaciones personales acerca del partido de ayer, pero como ya hemos quedado de acuerdo en que una de las condiciones esenciales del hinchaje es la pérdida absoluta y aceptada del sentido del ridículo, voy a decir lo que vi –o lo que creí ver ayer tarde– para darme el lujo de empezar bien temprano a meter esas patas deportivas que bien guardadas me tenía. En primer término, me pareció que el Junior dominó a Millonarios desde el primer momento. Si la línea blanca que divide la cancha en dos mitades significa algo, mi afirmación anterior es cierta, puesto que muy pocas veces pudo estar la bola, en el primer tiempo, dentro de la mitad correspondiente a la portería del Junior. (¿Qué tal va mi debut como comentarista de fútbol?).

Por otra parte, si los jugadores del Junior no hubieran sido ciertamente jugadores sino escritores, me parece que el maestro Heleno habría sido un extraordinario autor de novelas policíacas. Su sentido del cálculo, sus reposados movimientos de investigador y finalmente sus desenlaces rápidos y sorpresivos le otorgan suficientes méritos para ser el creador de un nuevo detective para la novelística de policía. Haroldo, por su parte, habría sido una especie de Marcelino Menéndez y Pelayo, con esa facilidad que tiene el brasileño para estar en todas partes a la vez y en todas ellas trabajando, atendiendo simultáneamente a once señores, como si de lo que se tratara no fuera de colocar un gol sino de escribir todos los mamotretos que don Marcelino escribiera. Berascochea habría sido, ni más ni menos, un autor fecundo, pero así hubiera escrito setecientos tomos, todos ellos habrían sido acerca de la importancia de las cabezas de alfiler. Y qué gran crítico de artes habría sido Dos Santos –que ayer se portó como cuatro– cortándole el paso a todos los escribidorcillos que pretendieran llegar, así fuera con los mayores esfuerzos, a la portería de la inmortalidad. De Latour habría escrito versos. Inspirados poemas de largometraje, cosa que no podría decirse de Ary. Porque de Ary no puede decirse nada, ya que sus compañeros del Junior no le dieron oportunidad de demostrar al menos sus más modestas condiciones literarias.

Y esto por no entrar con los Millonarios, cuyo gran Di Stéfano, si de algo sabe, es de retórica.

No creo haber perdido nada con este irrevocable ingreso que hoy hago –públicamente– a la santa hermandad de los hinchas. Lo único que deseo, ahora, es convertir a alguien. Y creo que va a ser a mi distinguido amigo, el doctor Adalberto Reyes, a quien voy a convidar a las graderías del Municipal en el primer partido de la segunda vuelta, con el propósito de que no siga siendo –desde el punto de vista deportivo– la oveja descarriada.”

Trivela

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