Trivela

América do Sul

Por Leandro Paulo Bernardo, 32 anos, cirurgião-dentista que nunca esteve na Ilha Margarida (e só irá quando ela voltar a ter um time de futebol)

Nueva Esparta é um dos estados da Venezuela, um dos menores em área e o único insular. Seu nome vem da resistência da população durante a Guerra da Independência, gerando comparações com a cidade grega famosa por seus guerreiros. Não era um dos grandes centros esportivos e econômicos da Venezuela, mas começava a ganhar espaço no meio da década de 1980. O turismo se desenvolvia na Ilha de Margarita, a principal do arquipélago, e era preciso chamar mais a atenção para o “Caribe Venezuelano”. Era o início de uma das mais curiosas história da Libertadores, uma história que completou 25 anos.

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Em 1984, Rafael Esquivel, presidente da Associação de Futebol de Nueva Esparta, teve a ideia de criar uma equipe que representasse o estado. O futebol era amador no país, e não exigiria o nível de investimento de se criar uma equipe de beisebol profissional. O nome seria Margarita Fútbol Club e mandaria as partidas em Porlamar, maior cidade do arquipélago. Mas, antes de entrar em campo, o clube se associou à rede de lojas Pepeganga, famosa pelos preços baixos de eletrodomésticos e roupas de qualidade questionável, e foi rebatizado como Pepeganga Margarita Fútbol Club.

Não havia um local específico para o futebol na região. O jeito foi improvisar no Guatamare, estádio de beisebol de Porlamar. Em seu primeiro jogo, o Pepeganga estreou com uma vitória contra o Deportivo Itália por 4 a 1. Os investimentos de Esquivel e do patrocinador tornou o time forte para os padrões locais. Na temporada 1986/87, o clube conquistou a segunda divisão da Venezuela. O sucesso impulsionou Esquivel, que chegou naquele ano à presidência da Federação Venezuelana de Futebol (cargo que ocupa até hoje).

Para disputar a elite, o Pepeganga contratou quatro estrangeiros, o máximo permitido pelo regulamento. Foram a Porlamar os brasileiros João Santana e Elisardo Perez (que iniciou a carreira no Santos, contribuiu muito para esse artigo e hoje é treinador na Venezuela) e os colombianos Nelson Gómez e Manimal Cortez.

Ainda não foi o suficiente para o time de Nueva Esparta chegar ao topo. O time terminou na sexta posição. Mas o caminho ficou aberto na temporada seguinte. Esquivel organizou o campeonato ao estilo europeu, com 32 rodadas e disputado simultaneamente a Libertadores e Copa América. Isso enfraqueceu Deportivo Táchira e Marítimo, potências da época e representantes venezuelanos na Libertadores. O Pepeganga ganhou terreno e ficou na segunda posição, perdendo o título para o Mineros de Guayana por um ponto.

Esse vice-campeonato assegurou uma vaga para o Pepeganga jogar a Libertadores de 1990. No entanto, para atender aos critérios da Conmebol, tiveram que mandar seus jogos fora de sua cidade pela falta de um estádio adequado. O clube escolheu o Pueblo Nuevo na cidade de San Cristóbal. Para a torcida era péssimo, pois a equipe jogaria a 1.200 quilômetros de sua sede, mas sete jogadores do elenco já haviam jogado pelo Deportivo Táchira e estavam familiarizado com o campo. De qualquer modo, o time de Porlamar tornou-se o único sediado em uma ilha a disputar a Libertadores.

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O torneio daquele ano seria marcante, pois pela primeira vez na história o Uruguai não teria Peñarol ou Nacional como representantes (disputaram Defensor Sporting e pelo Progresso, então presidido por Tabaré Vázquez, atual presidente do país). O único representante colombiano seria o Atlético Nacional, campeão da edição anterior, pois o campeonato nacional de 1989 foi cancelado após o homicídio do árbitro Álvaro Ortega. Todos temiam jogar no Peru devido à varios atentados do grupo terrorista Sendero Luminoso. Aquela edição seria também a ultima participação de um gênio e segundo maior vencedor da competição, Ricardo Bochini.

Na fase de grupos, o Pepeganga enfrentou Mineros, Progresso e Defensor Sporting. Nessa época já contava com um treinador uruguaio que vinha fazendo muito sucesso no pais, Víctor Pignarelli. Estreou em 25 de fevereiro perdendo para os Mineros em Ciudad Guayana por 1 a 0. Depois, venceu os dois times uruguaios em casa por 1 a 0. No resturno, bateu o Mineros por 2 a 1 e perdeu as duas em Montevidéu: 1 a 0 contra o Defensor e 2  0 contra o Progreso. Conseguiu a classificação para as oitavas de final, juntamente com as duas equipes uruguaias.

Jogadores do Pepeganga comemoram vitória sobre o Mineros em 1990

Jogadores do Pepeganga comemoram vitória sobre o Mineros em 1990

O sorteio colocou como oponente o Independiente, que havia disputado apenas dois jogos na fase de grupos (a Argentina comporia a chave com a Colômbia), contra o River Plate do treinador Daniel Passarela. Empatou por 0 a 0 no Monumental de Núñez e venceu por 1 a 0 em Avellaneda, terminando na primeira posição.

Os duelos contra o semi-profissional Pepeganga foram covardia. O time argentino venceu por 6 a 0 em San Cristóbal e, com freio puxado, fez “apenas” 3 a 0 em Avellaneda. Ali terminava a trajetória internacional do time da loja de departamentos que lançou o esporte de Nueva Esparta para toda a Venezuela.

A eventura deixou um prejuízo de US$ 2 mil ao Pepeganga Margarita devido ao gasto nas viagens para Uruguai e Argentina. José María Lorenzo, presidente das Lojas Pepeganga, decidiu parar de financiar o time de futebol. O time ainda disputou sua terceira temporada na primeira divisão venezuelana, terminando na sexta posição, mas cedeu os direitos ao Monagas ao final do campeonato. Assim o Pepeganga Margarita entrou para a lista de 54 equipes no futebol profissional venezuelano que deixaram de existir.

Aquele grupo se espalhou. Em 1991, Victor Pignarelli comandou a seleção vinotinto na Copa América e no Pré-Olimpico. Conseguiu um empate histórico que eliminou o Brasil de Cafu e Roberto Carlos no Pré-Olímpico. Depois fez um grande trabalho no Minervén, fazendo o time ser conhecido como o “ballet azul”. Em 1994, levou a equipe até as quartas de finais da Libertadores, com alguns jogadores do Pepeganga no elenco e com o artilheiro da competição (primeira vez de um venezuelano) Stalin Rivas com sete gols. O técnico faleceu na Colômbia em 2006.

Victor Pignarelli dá autógrafo a fã

Victor Pignarelli dá autógrafo a fã

A ilha de Margarita só obteve uma outra equipe profissional em 2011, com a fundação do Margarita Fútbol Club, com sede em Pampatar (cidade a dez quilômetros de Porlamar). Atualmente ocupa a segunda colocação no promédio de acesso para a elite, na frente de Mineros e Monagas. O time manda seus jogos no estádio Ciudad Deportiva, com capacidade para 4500 pessoas.

O estádio de Guatamare foi remodelado, ampliado e renomeado como Estádio Nueva Esparta em 2007. Atualmente recebe as partidas do Bravos de Margarita, equipe de beisebol profissional fundada em 2007, e foi sede de duas edições da Série do Caribe, uma espécie de Libertadores do beisebol.

A rede de lojas Pepeganga ainda funciona, possui filial na Colômbia e no Uruguai. Daquela época, fica a história da aventura futebolística de Porlamar e esse vídeo sensacional com uma promoção dos discos em vinil.

Leandro Paulo Bernardo, 32 anos, cirurgião-dentista que nunca esteve na Ilha de Margarita (e só irá quando ela voltar a ter um time de futebol)

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