Trivela

Sul-Americana

A semifinal de uma Copa Sul-Americana não é exatamente o evento que faz o país parar. Seja pelo inchaço da Libertadores ou até mesmo a maneira como parte dos clubes brasileiros ignoram o torneio secundário em suas fases iniciais, o prestígio é menor do que realmente deveria ser. Por exemplo, a TV aberta preferiu ignorar sumariamente o duelo, apenas para exibir a mesma reprise manjada de Hollywood pela enésima vez. Aos torcedores de dois grandes clubes brasileiros, entretanto, o jogo desta quarta representava o maior momento em anos. A chance de se aproximar da final e, quem sabe, conquistar um inédito título continental. E o Atlético Paranaense x Fluminense desta quarta não deveu em nada para as semifinais da Libertadores ou da Copa do Brasil – pelo contrário, em termos de qualidade do espetáculo, deu um banho de bola à maioria das partidas decisivas em ambos os torneios. Melhor a quem confiou no que já se prometia um jogaço, por tudo que estava sobre a mesa. E melhor ainda ao Furacão, que dá um passo contundente rumo à classificação, com a inapelável vitória por 2 a 0 na Arena da Baixada.

Joga-se passado, presente e futuro nesta semifinal de Copa Sul-Americana. Atlético e Fluminense almejam o troféu que nunca antes experimentaram em suas histórias. Desejam a glória máxima que irá referendar seus trabalhos atuais, já acima das expectativas. E esperam avançar à próxima Copa Libertadores, o bem-vindo bônus que a conquista continental também traz. Por isso tudo, era imaginável que os dois clubes exibissem toda a sua força na Arena da Baixada. No entanto, o encontro foi mais. Porque os grandes jogos decisivos, muitas vezes, terminam truncados. Não o desta quarta, em que ambos os times proporcionaram o embate intenso. O placar é até econômico, por aquilo que aconteceu ao longo dos 90 minutos. Mas, por fim, recompensa a clara superioridade do Furacão.

O Fluminense tentou apertar a saída de bola dos anfitriões logo nos primeiros minutos. Todavia, encontrou um Atlético muito ligado, com volume de jogo e velocidade em seus ataques. Desde o início, já começaram a surgir as primeiras chances dos rubro-negros, explorando as costas da zaga carioca. Em compensação, também viriam as respostas tricolores. Neste primeiro momento, os dois goleiros apresentaram as suas credenciais. Santos realizou ótimas defesas em cabeçadas de Gum e Luciano, pegando em cima da linha. Depois, Júlio César faria ótima intervenção em chute de Pablo. Era só um aviso, diante do ritmo acelerado que as duas equipes imprimiam.

O caminho do Furacão se abriu aos 18 minutos. Renan Lodi inaugurou o placar, a partir de uma jogada de Marcelo Cirino pela direita. Em uma sobra de bola na entrada da área, o lateral foi bloqueado no primeiro momento, mas aproveitou o rebote com extrema felicidade. Acertou um chute no cantinho de Júlio César, batendo na trave antes de entrar. Um dos grandes talentos deste time rubro-negro, o defensor se tornava protagonista e coroava o ótimo momento que vive. O tento seria apenas uma prévia do que se seguiu na noite.

O jogo se mantinha em alta voltagem, embora os atleticanos exercessem o controle sobre a situação, com os tricolores sentindo o baque. Havia muito espaço para o ataque nas laterais, enquanto as trocas de passe em velocidade ajudavam na pressão rubro-negra. Os homens de frente iam testando os cariocas. Nikão e Cirino não acertaram as conclusões, até Júlio César começar a despontar com uma série de intervenções. O Flu daria o troco com Everaldo, brecado por uma defesa segura de Santos. Por fim, o arqueiro tricolor salvaria mais uma vez. Lucho González arrematou e o chute desviado no meio do caminho rendeu um milagre de Júlio César, que ainda contou com a sorte, ao ver a bola bater no travessão. Cirino falhou no rebote, mesmo com a meta escancarada.

Na volta ao segundo tempo, o Fluminense mostrava mais atitude. Tomava a iniciativa em partir ao ataque e encontrava mais espaços. O Atlético perdeu qualidade no meio com a saída de Lucho González, embora se fechasse bem atrás. Entre muitos cruzamentos tricolores, a melhor oportunidade veio com Ibañez, em chute que passou perto da meta de Santos. Logo depois, a entrada de Rony seria decisiva. O jovem substituiu Marcelo Cirino (que fez grande primeiro tempo, mas sentia o cansaço) e deu nova alma ao ataque. Em uma de suas primeiras jogadas, entregou o presente a Pablo, que fez o travessão estalar. Depois, seria ele mesmo o responsável por ampliar, aos 32. Renan Lodi teve tempo o suficiente para caprichar no cruzamento e, às costas da zaga, Rony passou livre para completar de cabeça. Vantagem mais do que merecia.

O final do jogo deu a impressão de que a vitória do Atlético poderia ser ainda mais ampla. O Fluminense sentia o desgaste e sofria com a velocidade dos golpes dos anfitriões. As chances não eram tão claras, mas o incômodo e a sensação de exposição se tornaram constantes, diante da segurança exibida pelos rubro-negros. O Furacão fez jus o seu apelido, devastando os adversários e atuando em F5. Não fosse Júlio César, o estrago poderia ser maior. Enquanto isso, Renan Lodi justificou todos os elogios que vem recebendo, proporcionando os dois gols aos paranaenses graças à sua precisão. Impressiona a segurança e a maturidade do garoto de 20 anos, decisivo mesmo jogando como lateral.

A vantagem é excelente ao Atlético Paranaense, pensando no reencontro dentro do Maracanã. Se os rubro-negros ficaram devendo contra o Bahia (e, a bem da verdade, acabaram beneficiados pela arbitragem), desta vez o futebol falou mais alto e rendeu uma exibição inesquecível. Uma exibição que pode culminar na aguardada final. Ao Fluminense, irá se cobrar uma postura mais agressiva, assim como a correção dos recorrentes erros defensivos. O time viveu momentos no jogo, em que poderia ter aberto o placar ou buscado o empate. Ainda assim, não conseguiu anular virtudes dos paranaenses, tão escancaradas. Mais por um lado do que pelo outro, o jogo pode ser facilmente incluído entre os melhores do futebol brasileiro (e, por que não, sul-americano) neste 2018. Para aumentar as expectativas sobre os 90 minutos que restam antes da decisão.

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