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Europa

Canhotos são realmente piores que destros batendo pênalti?

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12 de Janeiro de 2018 às 21:44

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Por Murillo Moret

Antes de iniciar a leitura, vale informar que os quadrantes expostos no texto são referentes ao ponto de vista do cobrador. O quadrante 1 sempre será o ângulo esquerdo do cobrador ou direito do goleiro e assim por diante.

Essa podia ser uma história sobre Lionel Messi. Talvez até sobre Zico, Roberto Baggio, Matt Le Tissier, André Santos, Cristiano Ronaldo, Elano, Rivellino ou Ledio Pano. Quiçá, também, até sobre Alex Muralha, cobrado justamente para defender pênaltis – uma situação que, historicamente, dá 80% de vantagem para o batedor. Em algum momento da história, alguém supôs que canhotos eram piores que destros nas cobranças de penalidades. Resolvi tirar essa dúvida analisando algumas batidas. Foram 1.026 cobranças no total. O resultado se contrapõe à lenda: o índice de acerto é proporcionalmente igual para ambos os pés.

Entre as penalidades analisadas, os canhotos, obviamente, foram minoria – aproximadamente 20%, índice um pouco superior à média mundial publicada pela revista científica Scientific American. Os canhotos acertaram 76,3% dos pênaltis, enquanto os destros alcançaram 76,8%. A diferença é estatisticamente irrelevante e, portanto, os aproveitamentos são equivalentes. Foi realizado um estudo de consistência com 200 cobranças para verificar se os números seriam críveis; o resultado foi positivo, o que torna a amostra de tamanho suficiente para a comparação ser significativa.

O universo desta pesquisa são as cinco divisões principais das grandes ligas europeias disputadas nas temporadas 2015/16 e 2016/17. A Serie A foi o campeonato com o maior número de pênaltis (236), seguido pela Ligue 1 (217). Premier League, La Liga e Bundesliga não atingiram 200 cobranças. O estudo com os lances faltosos durante a partida – e não disputa de penalidades, pois seria um viés diferente – levou em consideração a perna dominante do cobrador, goleiro, resultado do pênalti e, caso a bola tenha atingido o gol, qual foi o quadrante escolhido. Dos 382 jogadores, somente nove passaram dos 10 pênaltis: Ronaldo (16), Alexandre Lacazette (15), Messi e Fabinho (13), Harry Kane (11), Aritz Aduriz, Riyad Mahrez, Troy Deeney e Paul Verhaegh – sendo Messi e Mahrez os únicos canhotos desta listagem.

Canhoto sempre bate cruzado?

O professor de Economia Natxo Palacios-Huerta analisou mais de nove mil cobranças entre setembro de 1995 e junho de 2012 e publicou os resultados no livro Beautiful Game Theory: how soccer can help economics. Seu universo é mais extenso do que o meu – 27 anos contra apenas dois -, embora ele não apresente informações específicas sobre a população, como a divisão de cobranças por campeonatos e aproveitamento por pés. Sabemos apenas que a maior parte da análise foi concentrada nas ligas espanhola, inglesa e italiana. Ao longo de mais tempo, os resultados tendem a sofrer mais com interferências, como métodos diferentes de treinamentos, estudos de comportamento e inteligência, análises de desempenho, etc.

O professor aponta que os atletas tendem a não finalizar no canto oposto. Na pesquisa dele, destros batem à esquerda do goleiro em 60% das oportunidades, assim como canhotos para o outro lado. Esse resultado difere da minha pesquisa. Sabe aquela história de que canhoto sempre bate cruzado? Na realidade, os destros bateram desta maneira em 40,4% das vezes, contra apenas 34,6% dos canhotos, porcentagem equivalente às cobranças com o pé esquerdo no canto natural: 33,6%. Esses números se aproximam dos resultados empíricos obtidos ao analisar a Bundesliga entre o fim da década de 1990 e 2010: a preferência de canto não é significativa para pés distintos.

Mas a sabedoria popular acerta ao dizer que basta fechar os olhos e encher o pé no meio do gol: o aproveitamento na faixa central é de praticamente nove acertos em cada dez tentativas.

Jogadores têm um canto favorito

Jogadores podem variar, mas têm preferências nas batidas. Neste universo, Cristiano Ronaldo esteve mais propenso a chutar no quadrante 6 (inferior direito, na posição do cobrador), assim como Messi. Por sua vez, Fabinho cobrou 60% dos pênaltis no canto inferior esquerdo. Verhaegh chegou a 80% de escolha para o mesmo local. Sergio Aguero gosta de mandar a bola no ângulo esquerdo. Dybala e Antonio Candreva, no canto inferior esquerdo. Mahrez e Iago Aspas, no inferior direito. E Lucas Biglia, alto pelo centro.

Matthew Le Tissier, ídolo do Southampton, gostava de dizer que mirava a malha lateral para sempre tirar do goleiro. Errou somente um em 49 tentativas. Pano encerrou a carreira com 100% de aproveitamento em 50 cobranças por “sempre saber onde colocar a bola”.

Campeonatos também

Interessante notar certos padrões nos campeonatos que são alterados periodicamente. No Brasileirão, por exemplo: mais de 40% dos pênaltis batidos em 2016 tiveram como destino o canto rasteiro esquerdo. Nos últimos dois anos, os franceses viram a maior parte dos pênaltis semelhante aos dos brasileiros (44,7%), mas o valor cai na Inglaterra, por exemplo (32,8%). Outro detalhe: nenhuma liga gosta tanto do quadrante 1 como a Serie A, com quase 9% dos pênaltis enviados para o ângulo esquerdo.

Mas é na Espanha que a diferença significativa aparece. Os cobradores de La Liga tendem a bater rasteiro. A parte baixa do gol é usada em 78% dos casos, mas na elite espanhola este índice ultrapassa os 80%, e o aproveitamento nos cantos cai em oitos pontos percentuais. Os espanhóis têm o aproveitamento mais baixo entre as ligas observadas: 71,72%.

No livro Soccernomics, exemplo máximo da utilização de dados estatísticos no futebol da forma mais “primitiva e sintomática”, Simon Kuper e Stefan Szymanski contam como os quadrantes têm importância, uma vez que são o coração do resultado da penalidade: se o goleiro acerta o canto, as chances das consequências serem alteras em razão de uma defesa crescem demais.

Falar sobre quadrantes tem a sua importância, uma vez que ele é o coração do resultado da penalidade: se o goleiro acerta o canto, as chances das consequências serem alteradas em razão de uma defesa crescem demais. Simon Kuper e Stefan Szymanski, no livro Soccernomics, contam sobre o exemplo máximo da utilização de dados estatísticos no futebol da forma “mais primitiva e sintomática”.

Palacios-Huerta foi colocado em contato com o técnico do Chelsea, Avram Grant, por um amigo em comum, professor de matemática e economia em uma universidade israelense. No período que antecedeu a final da Liga dos Campeões de 2008 contra o Manchester United, o basco levantou quatro pontos para o comandante dos Blues: 1) Edwin van der Sar costumava pular para o canto natural do batedor, e o Chelsea teria uma mais chances de converter a cobrança se os canhotos chutassem para o lado direito do goleiro e vice-versa; 2) as batidas tinham de ser rasteiras ou altas; 3) Ronaldo tinha a tendência de cobrar para o lado direito caso interrompesse a corrida e o goleiro não podia se mexer antes da batida; 4) time que iniciava a disputa vencia em 60% dos casos.

Michael Ballack, Belletti e Frank Lampard, destros, chutam à esquerda de van der Sar. Todos converteram. Ashley Cole, canhoto, também – mas marcou. John Terry, destro, seguiu a premissa, porém, escorregou no ato da cobrança. Trave. Salomon Kalou, destro, bate para a esquerda do goleiro e faz. Quando Nicolas Anelka se preparava para a batida, a mudança ocorre: Van der Sar troca de estratégia e aponta o lado esquerdo. O dilema foi instaurado, pois Anelka sabia que van der Sar sabia que Anelka sabia que Van der Sar costumava pular para a direita contra batedores destros. O francês trocou o canto, bateu pra direita, van der Sar pegou e o Manchester comemorou o título.

Tirando o goleiro holandês da análise – visto que individualizaria a proposta –, podemos nos ater ao segundo ponto do professor: um chute rasteiro é mais efetivo que os altos? Os dados do WhoScored não são totalmente precisos quanto a isso porque que as ações computadas resultam em valores de apenas seis quadrantes. De toda forma, o aproveitamento na parte superior do gol foi incrivelmente alto: 94% no 1, e 96% no 2 e 3.

Outras análises

Na Champions, destros batem melhor

A Uefa concluiu um estudo em 2014 que levava em consideração os pênaltis tentados na Liga dos Campeões entre 2007 e aquele ano. Os árbitros assinalaram 211 faltas e a taxa de aproveitamento foi de 74%, similar a do Campeonato Inglês no mesmo período. A estatística que se sobressai nestas pesquisas é exatamente a do pé do cobrador: enquanto os destros acertaram 78%, os canhotos converteram 63%. Os dados da entidade vão de encontro aos do levantamento de Sportingintelligence sobre Copa do Mundo e Eurocopa, que também mostra que a diferença entre pés dominantes é insignificante.

Alguns autores apontam outros fatores para o resultado do pênalti, como o canto escolhido, força do chute e velocidade de aproximação – uma forma simplista de falar sobre biomecânica e cinemetria –, e aspectos fisiológicos. Deste último, treinadores veem problemas em replicar situações de penalidades nos treinamentos, entre eles pressão e desgaste emocional, mas uma pesquisa da USP idealiza que a prática pode programar o jogador para diminuir a probabilidade de erro.

Quem bate primeiro ganha 60% das vezes

Trabalho de Natxo Palacios-Huerta, professor de Economia e autor do livro “Beautiful Game Theory: how soccer can help economics”. O trabalho é inspirado nas leis do Prêmio Nobel de Economia em 1994, John Nash. Até 2004, ele fez um levantamento de mais de 11.000 cobranças de pênalti. Os resultados: quem bate primeiro ganha em 60% das vezes; também em 60% das vezes, um chutador destro bate na região da mão direita do goleiro (e o canhoto na esquerda). Na fórmula dele, 80% dos PKs acabam em gol.

Canhotos desaprenderam a bater pênalti em 1998

Análise da Sportingintelligence com todas as decisões por pênalti das Copas do Mundo e Euro entre 1976 e 2010: 343 cobranças em 35 shootouts. Índice de acerto foi de 75%; sucesso de destro (75,7%) foi maior que o de canhoto (73,1%), mas há um detalhe: a partir de 1998, o aproveitamento dos canhotos caiu para 58% enquanto as decisões pré-98 indicavam sucesso em 83% das vezes. Índice de acerto por posição: zagueiros (70,7%), meias (70,6%), atacantes (85,5%). Por idade: 18-24 (79%), 25-30 (71,5%, que cai para 58% no pós-98), 31+ (82%).

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