Trivela

Brasil

Já se sabe do Bebeto de Freitas jogador e treinador de vôlei, figura que sempre será fundamental na história da modalidade, dentro e fora do país: levantador que esteve no time brasileiro que disputou o torneio olímpico de vôlei masculino em Montreal-1976, técnico artífice da geração que impulsionou o esporte no país, em dois torneios olímpicos (Los Angeles-1984 e Seul-1988 – claro, com a medalha de prata ganha em 1984 como destaque) e dois Campeonatos Mundiais (na Argentina, em 1982, com o Brasil sendo vice-campeão, e no próprio Brasil, em 1990, com o time chegando na quarta posição), comandante da Itália campeã da Liga Mundial de 1997 e do Mundial de 1998. No entanto, a segunda persona mais conhecida do carioca era no futebol, esporte pelo qual também era apaixonado. Foi envolvido no projeto de um grande clube, afinal, que Bebeto faleceu surpreendente e tristemente,  nesta terça, aos 68 anos, vítima de ataque cardíaco minutos após entrevista coletiva em que apresentara o projeto do Atlético Mineiro para o futebol americano.

Mais do que ser apaixonado pelo futebol, Bebeto era alucinado torcedor do Botafogo. O histórico familiar justificava ligação tão forte: era sobrinho de João Saldanha, um dos símbolos do que é ser um botafoguense, e primo (por parte de mãe) de um estandarte da história do time de General Severiano, Heleno de Freitas. Em entrevista de 2002, Bebeto até brincou: “Tio João dizia que qualquer pessoa da nossa família era livre para escolher o clube que quisesse para torcer – mas que, nesse caso, deveria escolher outra casa para morar”. Em entrevista à edição de fevereiro de 2007 da revista Trivela, a Ubiratan Leal, quando ainda presidia o clube, ele repetiu: “(…) O chamado do Botafogo é muito forte. O clube sempre esteve na minha casa, na minha família. Não é uma coisa à qual eu possa ser indiferente. Sempre senti que teria de trabalhar pelo Botafogo, em troca de tudo o que ele fez por mim. Foi por meio dele que fiz minha carreira profissional”.

No entanto, sua primeira incursão pelo futebol se deu em outro clube. Ele contou à Trivela: foi em 1999, logo após o apogeu do título mundial de vôlei com a Itália, no ano anterior. “Com o Mundial da Itália, em 1998, eu consegui tudo o que eu queria no vôlei. Aí, a convite de um amigo meu, fui trabalhar no Atlético Mineiro”. Por sinal, o Galo também andava necessitado de mudanças internas, após sérios problemas durante a gestão de Paulo Cury (1995 a 1998). Empossado no começo daquele 1999, Nélio Brant trouxe Bebeto para ser o “manager”, trabalhando na condução do futebol junto a Alexandre Kalil, na época presidente do Conselho Deliberativo. E o ano trouxe bons resultados, com o título mineiro e o vice-campeonato brasileiro.

Mas o destino marcava um encontro com o clube que ele tanto amava, como o próprio descreveu na entrevista à Trivela: “Vim para o Rio de Janeiro em 2000, voltei ao Atlético em 2001, e chegamos em quarto no Brasileiro. Aí, surgiu a possibilidade de eu me candidatar à presidência do Botafogo, o que sempre foi um sonho meu”. O projeto começou com a chegada à diretoria, em 2002, ainda na gestão de Mauro Ney Palmeiro, com quem Bebeto logo rompeu. Candidatura confirmada, o cenário começou a ser favorável para sua chegada: “Houve uma repercussão boa, e muita gente deu força. O Botafogo estava todo arrebentado, tinha sido rebaixado para a segunda divisão, e eu achei que fosse a hora. Não foi nem forçado, mas chega uma hora…”. E em janeiro de 2003, Bebeto era empossado. Com a festa por alcançar o lugar sonhado sendo rapidamente substituída pela duríssima realidade que encarou nos cinco anos à frente do Botafogo: dívidas, dívidas e mais dívidas.

Dentro de campo, com o Botafogo disputando a Série B naquele ano, sair dela rapidamente era imperioso, como ele comentou à revista “Istoé Gente”, em 2004: “No jogo decisivo [para o acesso: Botafogo 3 X 1 Marília, em 22/11/03], ganhávamos de 3 a 0 e o Marília fez um gol quando faltavam uns 18 minutos. Não vi mais a partida. Fui para o vestiário e me tranquei lá. Tomei remédio para dormir durante o ano, porque sempre acordava no meio da noite. Era muita responsabilidade. O que estava envolvido era a paixão de todos que gostam do Botafogo. Perde-se tudo [ao ser rebaixado]. O Botafogo recebeu R$ 350 mil durante a disputa da segunda divisão, juntando todas as receitas do campeonato, que só aconteceu porque a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) arcou com as passagens aéreas. Esse valor seria pelo menos o dobro na primeira divisão. Ainda temos de pagar os salários de dezembro, o 13º e o prêmio pela classificação aos jogadores, a quem somos muito gratos”.

O objetivo foi cumprido – com mais alívio do que festa, ao falar em 2004 à “Istoé Gente”:  “Quero que jamais esqueçam porque fomos rebaixados, mas não quero me lembrar nunca mais desse campeonato. A responsabilidade era enorme. Em 2004 o Botafogo faz 100 anos. Imagine se jogássemos na segunda divisão no ano do centenário”. E mesmo mantendo o Alvinegro na Série A, quase sempre o cenário era de penúria, como Bebeto esmiuçou na entrevista de 2007 à Trivela: “O clube cresceu em 2003, 2004 e 2005, até setembro. Desde então, está sendo empurrado pelos pulmões de uns malucos que nem eu. Em outubro e novembro de 2005, tivemos uma penhora fiscal que nos tirou quase R$ 6 milhões, relativa a uma ação de 1993. Imagina como essa dívida veio se arrastando todos esses anos. É com esse tipo de coisa que temos de conviver. (…) O Botafogo ficou de tal maneira ao relento que não adianta falar de nada quando se tem uma dívida do tamanho da do Botafogo. Hoje, o problema do clube não é o time de futebol, se ele ganha ou perde em campo. Não adianta ganhar e continuar com os problemas do Botafogo como empresa”.

Claro, Bebeto se esforçava para ajudar a mudar a estrutura do futebol brasileiro, crítico e combativo que sempre foi já no vôlei. Ainda antes da posse, em 2002, já como presidente eleito, foi dele o voto decisivo para que o Campeonato Brasileiro passasse a ser em pontos corridos. Sua batalha pela aprovação do projeto original da Timemania, com os clubes se convertendo em empresas como contrapartida, era a menina dos olhos nas declarações a Ubiratan Leal para a Trivela: “A única chance que o Botafogo tem de se reerguer é a Timemania. Se ela entrar em vigor no início de 2007, este será o ano zero do Botafogo. Se demorar muito mais, nem a Timemania vai adiantar. (…) Ela vai permitir um alinhamento fiscal do clube. Sem isso, do ponto de vista prático, é ilusão dizer que o Botafogo vai a algum lugar (…) Com o clube se tornando uma empresa sem nenhum problema financeiro, dá para atrair investidores, parceiros ou receitas em outras ações”.

Outra urgência de Bebeto era fazer o Botafogo ter um lugar seu e fixo para mandar os jogos, mais amplo do que o antigo Caio Martins: “Sem estádio, nenhum clube vai para frente como negócio, mas a questão do estádio do Botafogo está diretamente ligada ao problema fiscal. Um investidor põe R$ 50 milhões no Botafogo, para construir um estádio, e o dinheiro pode sair para cobrir outros buracos”. Uma das ideias foi justamente a que vingou: a conquista da posse do Estádio Nilton Santos, via licitação, por 20 anos, em consórcio, rendendo o Engenhão para minorar as aflições financeiras (ainda hoje, grandes) do clube.

Entre marchas e contramarchas, porém, a passagem de Bebeto como presidente botafoguense terminou amargamente. Cada vez mais isolado dentro do clube (e dentro do próprio cenário do futebol brasileiro), os rompantes de torcedor começaram a se descontrolar. Em meio ao célebre “chororô” após a derrota na Taça Guanabara de 2008, para o Flamengo, após a péssima arbitragem de Marcelo de Lima Henrique, ele chegou a anunciar a renúncia ao cargo: “Estou no Botafogo há seis anos e a gente cansa. Hoje é meu último dia como presidente do Botafogo. Peço desculpas a todos, mas a gente precisa ter coração forte para aguentar isso. Quando cheguei ao clube, o Botafogo estava despedaçado. A gente trabalha e ter que aguentar isso é difícil”. Depois, voltou atrás. Mas a segunda gestão se encerrou no final daquele ano, deixando uma acusação que magoou Bebeto ainda mais: o presidente eleito, Maurício Assumpção, o acusou de roubar um broche, com o escudo da Estrela Solitária cravejado de brilhantes, que tradicionalmente marcava a transição entre os mandatários do clube.

Depois, soube-se que Bebeto o tinha perdido, e a acusação caiu no esquecimento, mas o trauma o afastou definitivamente da política do clube do coração novamente, talvez o poupando da dificuldade que era conciliar paixão e responsabilidade, como citou à Trivela em 2007: “É muito difícil [lidar com as emoções]. Se alguém aparecesse com uma proposta de R$ 1 bilhão para o Botafogo levar o Ronaldinho logo depois de uma derrota, daria vontade de assinar o cheque e depois pensar em como pagar. Mas não posso fazer isso”.

Restou voltar ao outro clube de que se tornou íntimo no futebol, o Atlético Mineiro. Em 2009, já presidente, Alexandre Kalil chamou o parceiro Bebeto para ser diretor executivo remunerado, cargo ocupado até agosto do mesmo ano, quando ele saiu, por problemas particulares. Mesmo assim, a confiança mútua entre ambos entrou para a política, com Kalil o convidando para ser secretário de Esportes tão logo assumiu a prefeitura de Belo Horizonte, no ano passado. Só mesmo um chamado do Atlético fez Bebeto voltar ao Galo: com a posse de Sérgio Sette Câmara na presidência do clube do bairro de Lourdes, ele regressou como Diretor de Administração e Controle. E nesse posto estava, até o coração trai-lo. E privar definitivamente o futebol e o esporte brasileiros de uma figura que foi vencida pela estrutura arcaica, mas que tentou aprimorá-la enquanto esteve dentro dela.

 

 

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