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França

Semana após semana, N’Golo Kanté conquista mais admiradores. É impressionante o que o meio-campista francês vem fazendo na Premier League. Se já tinha sido fundamental na conquista do Leicester, apontado por muitos como o melhor do time (algo que se provou após a sua saída), o início brilhante no Chelsea ressalta as suas virtudes. Em um momento no qual a produção ofensiva do time de Antonio Conte caiu um pouco, surgem clamores para que o volante seja eleito o melhor do campeonato. Suas atuações no segundo turno, sobretudo, justificam a indicação, se sobressaindo ainda mais por seu trabalho frenético na defesa e também por aquilo que pode construir no ataque. E pensar que, em seus primeiros anos tentando se firmar como jogador de futebol, muitos o ignoravam.

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Neste momento, os clubes e a imprensa inglesa se debruçam para entender por que Kanté é tão fenomenal. Afinal, suas características não costumam receber as devidas atenções de um modo geral, e agora encantam. Não é o jogador que se encaixa em um padrão sobre o que querem os observadores na Inglaterra – indo mais além, também no resto da Europa. Se não é tão difícil assim pensar em um “volante baixinho e enérgico” na América do Sul, por lá são raros os meio-campistas que possuem um perfil parecido ao do francês – como, de certa maneira, Javier Mascherano, que mesmo assim só chegou por lá com uma Copa do Mundo no currículo. O tipo mais comum de “cabeça de área europeu” é o jogador com bom porte físico e muita força. Não exatamente um Kanté.

Assim, não parece tão surpreendente que Kanté tenha sido escanteado ao longo de sua carreira nas categorias de base. Filho de imigrantes malinenses, o parisiense iniciou sua trajetória no JS Suresnes, famosa equipe formadora da região metropolitana. Começou a treinar com os outros garotos quando tinha oito anos. Ficou no clube até os 19, sem que ninguém o pinçasse de lá. Ligado ao Paris Saint-Germain, o Suresnes sustenta a reputação de ser a academia com os atletas mais talentosos da capital. Ninguém de fora do ambiente de trabalho, contudo, conseguiu perceber o talento de Kanté. Outras revelações locais saíam dali muito mais precocemente. Mas isso não quer dizer que os próprios membros da comissão técnica não estavam cientes do que o menino miúdo poderia fazer.

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“Ele era muito receptivo às orientações do treinador, às informações táticas ou de posicionamento. Ele sempre ouviu atenciosamente e as decisões que tomava em campo eram muito inteligentes. Eu sempre o colocava com os garotos mais fracos, porque seu esforço contava por dois”, relembra Piotr Wojtyna, seu técnico no Suresnes, em entrevista à BBC. Visão corroborada por Pierre Ville, outro treinador da academia francesa, ao avaliar à Sky Sports o porquê de não buscarem Kanté na base, como tão corriqueiro com outros jogadores que se tornam profissionais: “Os olheiros claramente não viam o quão excepcional ele era. Ignoravam por ser um cara pequeno, não dava espetáculo. Mas ele não jogava por si, jogava pelo time”.

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A saída de Kanté do Suresnes, às vésperas de estourar a idade nas categorias de base, só aconteceu com uma ajudinha do presidente. O mandatário da academia tinha bons contatos com o Boulogne, clube que então figurava na segunda divisão. Primeiro, ele se juntou ao segundo elenco, antes de ser promovido ao time principal. Só que não havia um consenso sobre a posição do francês. Ele não entrava necessariamente como volante. Em seus primórdios, era lateral direito reserva ou ponta. Prestavam muito mais atenção em sua capacidade física.

“Um dia fizemos um teste de corrida. Você precisava correr o seu máximo e foi ele quem zerou o teste. Ele seguiu correndo depois que todo mundo já tinha parado, dando voltas na pista. Mês após mês, as pessoas começaram a ver que N’Golo era realmente um bom jogador. Eu me lembro de vê-lo indo ao supermercado na França com sua sacola e seu patinete. Ele queria fazer tudo por si mesmo. Boulougne tem muitas ladeiras, mas ele chegava ao treino de patinete. Se você oferecesse uma carona, na maior parte do tempo ele recusava, queria ir sozinho. É por isso que ele é tão forte mentalmente, veio realmente de baixo e fez tudo por seus méritos”, conta Maxime Colin, titular da lateral na época e que atualmente defende o Brentford.

Kanté chegou mesmo a ser rebaixado com o Boulougne. Passou dois anos no clube, até ser contratado pelo Caen. Por lá, enfim, construiu sua reputação muito além dos treinamentos. Na primeira temporada, ajudou a equipe a conquistar o acesso à Ligue 1, figurando entre os melhores do campeonato. Já na segunda, ninguém deixava de ver o jogador excepcional que se estabeleceu, contra todas as expectativas. Neste momento, apontado como “herdeiro de Makélélé” e atuando na posição em que é reconhecido atualmente como um dos melhores do mundo.

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“Eu era mais um jogador ofensivo no início da carreira. Por dois ou três anos, atuei como ponta. Para ser honesto, apenas quando estava na primeira divisão é que o meu técnico e as outras pessoas tiveram certeza que meu trabalho era recuperar bolas. Antes disso, nem eu considerava esta como minha função. Não descobria esta qualidade em mim”, declarou o próprio Kanté.

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Ainda assim, apesar do impacto na Ligue 1, sua contratação pelo Leicester não foi um ato protocolar. Diretor de futebol das Raposas na época, Steve Walsh foi quem se encantou com o futebol do meio-campista. Tinha certeza de que seria um grande negócio. Mas precisou convencer Claudio Ranieri, um tanto quanto relutante a acreditar que um atleta baixo como aquele poderia enfrentar o nível de exigência da Premier League. Depois de muita insistência, enfim, o dirigente conseguiu vencer a teimosia do italiano. E certamente o comandante carregará uma gratidão eterna por isso, pela forma como o novato transformou o Estádio King Power. Esteban Cambiasso, que havia sido eleito o melhor jogador do clube na temporada anterior, mas preferiu se transferir ao Olympiacos para a sequência da carreira, mal foi lembrado.

Obviamente, Kanté tem etapas a superar. Precisa desenvolver as suas participações no ataque e o senso de liderança para se tornar ainda mais completo. Já vem trabalhando para tal e é possível notar certa evolução. Além disso, a próxima temporada oferece um desafio maior ao seu padrão de jogo incansável, com o calendário mais cheio, diante da classificação dos Blues à Liga dos Campeões. De qualquer forma, as interrogações maiores não se colocam exatamente ao seu futuro, mas ao futuro das categorias de base na Europa. Quantos volantes acima da média não se perdem como pontas medíocres?

A resposta virá apenas com o tempo. No entanto, ao menos o jeito de se observar as promessas acabará sendo moldado. Em um futebol cada vez mais tático, a inteligência de jogadores como Kanté, que aproveita o seu físico privilegiado para se posicionar da melhor maneira, serve de diferencial. A linha tênue entre o sucesso e o fracasso do francês, aliás, aponta para este sentido. Ele não teve o maior nível de exigência nas categorias de base, passando longe das principais competições e das seleções menores. Todavia, teve que se provar contra as desconfianças a cada momento. Sua determinação e sua capacidade de aprendizado, por fim, impulsionaram o fenômeno agora aclamado.

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