Trivela

Brasil

Quando Mauro Silva roubou a bola na intermediária, disparou ao ataque e deu o passe em profundidade, num só instante o Maracanã deixava de ser um estádio de futebol. Era como se aquele pedaço generoso do campo defensivo do Uruguai, o latifúndio para um craque de espaços curtos, se transformasse em pista de corrida a um possante bólido. Romário arrancou. Um meteoro, na mais pura velocidade. E com o universo pela frente, não existia outro destino para os olhos da torcida senão o atacante em sua melhor forma, na forma como mais gostava, com a bola nos pés e o gol pela frente. O goleiro Siboldi, insistente obstáculo durante boa parte do confronto, se tornava um mero transeunte a ser atropelado por aquela máquina imparável. O camisa 11 passou. Com um drible de corpo, deixou o oponente comendo grama. Dentro da área, redes vazias, o Baixinho empurrou a velha amiga ao lugar onde adorava guardá-la. Então, o Maracanã voltava a ser estádio, e explodia. Comemorava a vitória por 2 a 0 sobre o Uruguai. Consagrava Romário. Celebrava o retorno do rei e, em breve, a volta do reinado.

Há momentos que mudaram a história da seleção brasileira. Aquela bola que Didi buscou no fundo das redes contra a Suécia, por exemplo, é um deles. A deixada de Pelé para Carlos Alberto encher o pé e arrebatar a Jules Rimet, outro. E em qual momento começa o tetra? O 19 de setembro de 1993 serve de marco. O Brasil sofria a ameaça de não se classificar à Copa, mas que não era tão grande assim, bastando o empate contra o Uruguai. No entanto, havia um peso por convencer. E o mais apto a isso era Romário, ausente nos meses anteriores, de volta para surgir como um herói na vitória que carimbou o passaporte rumo ao Mundial dos Estados Unidos. Mais importante que o resultado foi a maneira categórica como o time de Carlos Alberto Parreira derrotou a Celeste. A maneira como o Baixinho deixou o Maracanã ao seus pés, na atuação mais emblemática de sua vida.

Se há uma partida que muda o patamar de Romário, de craque a lenda, é essa há 25 anos. Os clamores populares pediam o retorno do camisa 11 à Seleção, após se desentender com Parreira e Zagallo, em mais um de seus clássicos episódios de indisciplina. Pois ele não apenas voltou, como superou até mesmo as expectativas mais otimistas. O jogo marca toda uma geração que, depois de duas décadas, veria o Brasil se tornar campeão do mundo novamente. A confiança que permeou o time ao longo da jornada nos EUA chegou ao seu ápice diante dos 100 mil no Maracanã. Justamente porque o Baixinho estava lá, pronto para cumprir sua palavra e arrebatar o seu lugar na história.

A narrativa do Brasil 2×0 Uruguai, entretanto, não começa em 19 de setembro de 1993. Sua dimensão ganha contornos mais fortes a partir de 16 de dezembro de 1992. Naquele dia, a Seleção encerrava os seus compromissos no ano disputando um amistoso contra a Alemanha, em Porto Alegre. Venceu por 3 a 1, gols de Luis Henrique, Bebeto e Jorginho. Romário, que começou no banco e atuou por poucos minutos no segundo tempo, seria mero coadjuvante em campo. Mas não fora dele.

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O Baixinho já ficara dois anos sem defender a seleção brasileira. Disputou a Copa de 1990, mas, no PSV, não participou da renovação profunda empreendida por Paulo Roberto Falcão no início do ciclo seguinte, voltada principalmente aos atletas em atividade no país. Só voltou em agosto de 1992, quando Parreira havia assumido o time e o chamou para um amistoso contra a França. Depois, o próximo compromisso seria justamente diante da Alemanha. Romário vivia boa fase na Holanda e esperava retomar o posto de titular com a camisa amarela. A escolha por Careca, já em declínio no Napoli, o deixou furioso. Seu jeito intempestivo o levou aos microfones, reclamando da decisão. Disse que não valia a pena enfrentar horas de viagem só para ficar no banco da Seleção.

Além de Romário e Careca, Bebeto e Renato Gaúcho também haviam sido convocados para aquele amistoso. Na concentração, Parreira chamou os quatro atacantes para uma conversa, dizendo que precisariam brigar por seu espaço. Ao final, o treinador escolheu Careca e Bebeto, sob a justificativa de que o entrosamento exibido em partidas anteriores merecia o mais minutos. Depois do jogo, a troca de farpas via imprensa se intensificou. Então assistente de Parreira, Zagallo fez as críticas mais duras.

“Ele é desagregador e tem antecedentes. Já tomei minha decisão. O Brasil foi tricampeão do mundo por saber trabalhar junto. É claro que existia talento, mas a união foi um fator fundamental nestas conquistas. Romário quase acaba com nosso trabalho em apenas três dias. O Romário tinha que ter dito na conversa que se achava o titular. O que ele fez foi molecagem, pois tentou jogar a torcida contra nós”, declarou Zagallo, na semana posterior ao jogo. “Garrincha, Pelé e Nilton Santos ficaram na reserva e não aceito um jogador querer exigir a sua escalação. O mal tem que ser cortado pela raiz”.

Romário, de fato, não tinha bons antecedentes na Seleção. Em 1985, foi cortado dos juniores por, segundo relatos diferentes da época, ter urinado na direção de turistas que o atormentavam sob a janela do hotel onde o time estava concentrado e por ter feito gestos obscenos do mesmo local a prostitutas de Copacabana. Também tinha pegado mal a sua rixa com o médico Lídio Toledo na Copa de 1990. Recuperando-se de lesão, o Baixinho preferia trabalhar com seu próprio fisioterapeuta, o amigo Filé, o que não foi admitido pela equipe médica da comissão técnica de Sebastião Lazaroni. A indisciplina em Porto Alegre era a cereja do bolo.

Não que a viagem ao Brasil naquele verão de 1992 fosse exatamente um grande problema a Romário. O atacante permaneceu no Rio de Janeiro durante a virada do ano, disputando seus torneios de futevôlei com os amigos. A reserva incomodava bem mais, em momento no qual também vivia as suas turbulências no PSV. Romário resolvia dentro de campo, isso não era problema. Todavia, nunca escondia sua insatisfação ao seu substituído ou ficar no banco, além de fazer críticas abertas à diretoria e ao comando técnico pela falta de reforços ao elenco. Achava que os Boeren não eram mais competitivos o suficiente e ameaçava sair. Juventus, Valencia e Barcelona surgiam como alguns dos possíveis destinos.

Diante do imbróglio, Parreira teve uma reunião com Ricardo Teixeira, então presidente da CBF. Estabeleceu um código disciplinar à Seleção e resolveu deixar o atacante de fora das convocações. Entretanto, negava publicamente qualquer boicote. “Realmente o episódio envolvendo Romário foi desagradável, mas só o tempo dirá se ele será ou não lembrado em novas convocações. Seria uma grande precipitação qualquer ponto de vista ou manifestação sobre o jogador neste momento. Eu prefiro dar tempo ou tempo. Não podemos perder para nós mesmos. Não admitirei indisciplina e a estrela do time tem que ser a camisa da seleção, não as pessoas agindo de forma individual”, afirmou o treinador, ainda em dezembro.

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Romário, por sua vez, não demorou a colocar panos quentes. À imprensa, passou negar qualquer problema de relacionamento com a comissão técnica e se deixava à disposição. “Enquanto estiver fazendo muitos gols no PSV, serei titular da Seleção. Conversei com o Parreira e garanti que continuarei sendo artilheiro. Ele pode contar comigo. Estou tranquilo e tenho certeza de que o Parreira me convocará novamente. Quero ajudar a Seleção a se classificar para a Copa do Mundo”, apontou em janeiro de 1993. O problema é que a convocação do camisa 11 não vinha mais.

Em maio, Parreira disse que Romário não estava banido, embora manifestasse sua insatisfação com a indisciplina. Deixou o atacante de fora das convocações à US Cup e à Copa América, ambas realizadas em junho de 1993. “Não há pressa para ter Romário novamente na Seleção. Podemos aguardar”, reafirmava o treinador. Só que os resultados passaram a atrapalhar bastante. A Seleção venceu apenas os americanos na US Cup, empatando com a Inglaterra e a Alemanha. Pior ainda foi a campanha na Copa América, com empate contra o Peru, derrota para o Chile e vitória sobre o Paraguai na fase de grupos, antes da eliminação nos pênaltis ante a Argentina. As dúvidas pairavam às vésperas do início das Eliminatórias.

Romário estava em evidência. Não conquistou o Campeonato Holandês com o PSV, mas fez boas campanhas, empilhando gols pelo clube. Além disso, ficava claro que não permaneceria mais no Estádio Philips. Fez a diferença o dinheiro do Barcelona, que o levou a peso de ouro, com a benção de Johan Cruyff em uma intrincada negociação. Chegava aos atuais tricampeões espanhóis e que haviam faturado à Champions no ano anterior. Seu posto entre os melhores atacantes do mundo era inegável na época, agora para se combinar com Hristo Stoichkov e Michael Laudrup.

Parreira voltaria a convocar a Seleção em julho, para a campanha nas Eliminatórias, que se desenrolaria ao longo dos dois meses seguintes. Não deu o braço a torcer por Romário. No entanto, o futebol burocrático e a falta de gols começavam a aumentar os clamores populares. Prova disso aconteceu em um amistoso contra o Paraguai, realizado em São Januário. A torcida vascaína presente nas arquibancadas não deixou de gritar o nome do velho ídolo, a insultar o treinador e a vaiar Careca, independentemente da vitória por 2 a 0 sobre os visitantes. Ao mesmo tempo, a imprensa também dava voz às opiniões favoráveis ao retorno do artilheiro, seja de populares ou de outras personalidades do esporte.

Romário se ajudava bastante. Ia bem na pré-temporada com o Barcelona, anotando os seus gols. Em amistoso contra o São Paulo, os blaugranas deram o troco pela derrota na final do Mundial. O Baixinho foi a figura da partida, televisionada pela TV aberta no Brasil – com direito a gol, bola no travessão e outras boas jogadas. Além disso, mantinha o seu tom de “monge” ao falar sobre a seleção brasileira. “Vim da Holanda atendendo a uma convocação e me achava, naquele momento, em melhores condições do que os outros jogadores. Não disse que era o melhor, mas entendia que aquela seria minha vez de jogar, pelo bom período que atravessava. Ia conversar com Parreira e Zagallo, mas foram eles que me chamaram. Achei boa a conversa e deixei a reunião certo de que tudo estava superado. O Parreira é uma pessoa educada e nunca me chamaria de mau caráter. Não acreditaria nisso. Dizer que tenho um caráter duvidoso eu até aceito. Principalmente porque só mantive contato com ele uma vez na França, outra em Porto Alegre e uma outra vez, numa reunião social”, apaziguava Romário, naquele mês de julho de 1993.

O Brasil não começou bem as Eliminatórias. Com Careca e Bebeto no ataque, empatou sem gols na visita ao Equador. Depois, com Müller na linha de frente, aconteceu a emblemática derrota para a Bolívia em La Paz, com o erro fatal de Taffarel, que vinha segurando o resultado. O primeiro revés da história do país no qualificatório tinha um peso de hecatombe na época. A recuperação até aconteceu, com goleada sobre a Venezuela em San Cristóbal, antes do empate contra o Uruguai em Montevidéu. Só que a figura de Romário era uma clara sombra ao elenco. Em amistoso contra o México no Rei Pelé, seu nome ecoou. O mesmo aconteceu no Morumbi, durante o pouco convincente triunfo por 2 a 0 sobre o Equador, de volta às Eliminatórias. Na casa do São Paulo, os pedidos eram pelo Baixinho e por Telê Santana.

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Ao menos, a pressão sobre o Brasil atenuou a partir do reencontro com a Bolívia. No jogo lembrado pela maneira como a torcida pernambucana abraçou o time no Arruda, a Canarinho goleou por 6 a 0, com show de Bebeto. Dias depois, a vitória por 4 a 0 sobre a Venezuela no Mineirão aproximou a Seleção da Copa do Mundo. Ao término da penúltima rodada, os então tricampeões mundiais ficaram a um ponto da classificação. Brasil, Bolívia e Uruguai vinham igualados com dez pontos, mas saldo de gols bastante superior ao time de Parreira. De qualquer maneira, qualquer deslize no Maracanã poderia botar tudo em risco novamente.

A relação bem mais amistosa entre Parreira e Romário repercutia na imprensa. O treinador já passava a admitir a convocação, mas deixando claro que a reconciliação só deveria acontecer depois das Eliminatórias. “Terei um ano pela frente para armar a Seleção para a Copa. Se ele merecer a convocação, fiquem certos que será chamado. Ainda mais que o Romário tem sido muito elegante e está com a cabeça no lugar”, apontava o comandante. “Ele é um excelente jogador, tem grandes qualidades, mas eu estava muito preocupado com o lado disciplinar nestas Eliminatórias. Romário é polêmico, mas mostrou ter adquirido grande maturidade quando deixou de ser convocado. Suas declarações foram inteligentes e ponderadas, com isso ele manteve as portas abertas”

Ao mesmo tempo, o Baixinho não escondia seu desejo de voltar. “Estou pronto para o caso de ser convocado, vou correndo. Se não fui convocado para as Eliminatórias, era porque avaliaram que eu não estava em boa forma física e técnica”, dizia. Suas palavras sempre deixavam transparecer uma humildade que não era exatamente o seu costume. Mesmo Zagallo, o mais enérgico sobre os fatos anteriores, baixava a guarda.

O jogo decisivo para a convocação de Romário aconteceu em 5 de setembro de 1993, mesma data da goleada sobre a Venezuela. Naquele dia, o atacante fazia sua estreia oficial pelo Barcelona, na abertura do Campeonato Espanhol contra a Real Sociedad. Até imaginava-se que Cruyff deixaria seu reforço no banco neste primeiro compromisso, em tempos de limites a estrangeiros. O craque não apenas jogou, como também acabou com a partida: anotou os três gols do blaugranas na vitória por 3 a 0. O camisa 10 demonstrou sua velocidade, sua categoria e, sobretudo, seu poder de definição com uma coleção de belos gols. A partida, transmitida pela TV aberta no Brasil, ganhou as manchetes do dia seguinte e até mesmo teve os gols anunciados no placar eletrônico de São Januário, durante o compromisso simultâneo do Vasco. Era impossível não se render ao excelente momento do artilheiro.

Parreira, por sorte, tinha uma brecha. Naquela época, a Fifa orientava que as seleções sul-americanas fizessem apenas uma convocação para o bloco de jogos nas Eliminatórias. Era o mesmo time que seguiu em atividade a partir de julho. Todavia, sem que a Data Fifa existisse, as competições de clubes ocorriam concomitantemente e nem todas as equipes europeias liberavam seus atletas. Assim, os cortes e mudanças no elenco poderiam ser feitos a qualquer momento. Müller sofreu uma lesão às vésperas do jogo contra o Uruguai. E adivinha só quem foi chamado? O treinador anunciou a adição do craque em 8 de setembro, apenas três dias do espetáculo no Camp Nou. O Baixinho voltava aclamado.

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Na imprensa espanhola, até admitiam que Romário pudesse abrir mão do jogo. Sua esposa, Mônica Santoro, esperava bebê e o estágio avançado da gravidez não permitia que ela retornasse ao Brasil. O segundo filho do atacante deveria nascer por aqueles dias. Ainda assim, sua gana por defender a Seleção o fez abrir mão do momento único e retornar ao Brasil. Desembarcou cercado por jornalistas e recebido pelo pai, seu Edevair.

“Não me sinto um exilado. Na realidade, estou muito satisfeito com a volta à Seleção. Vou tentar dar o máximo. A torcida pode esperar muita vontade e determinação. Gols, principalmente. Este é meu objetivo. Vai ser ótimo voltar ao Maracanã com o estádio lotado. A motivação é ainda maior. Só não quero que me vejam como salvador da pátria, mas como mais um jogador convocado. Aliás, acho que fui chamado pelo que tenho feito pelo Barcelona”, falou Romário, em seu desembarque. “Minha expectativa é de que tenha uma relação normal com a comissão técnica, profissional. Vim para trabalhar e ajudar a seleção. Eu tive problemas com Zagallo e Parreira, mas não penso nisso agora. Só penso no domingo. Fui convocado pelo trabalho feito no clube, pela contusão do Müller e pelo pedido do povo brasileiro”.

Da mesma maneira, Parreira evitava aumentar a cobrança sobre Romário e centralizar as atenções na figura do atacante. Confiante, acreditava que a classificação à Copa do Mundo viria sem grandes dificuldades. “O Romário não vem para salvar a pátria. Até porque o Brasil não está numa situação desesperadora dentro das eliminatórias. A Seleção está acima de tudo. Futebol é momento e Romário está numa fase excepcional. Ele sabe fazer gols e é isto que interessa. Não devo explicações a ninguém na hora de escalar o time”, avaliava, afirmando que ninguém tinha lugar assegurado entre os titulares.

Bebeto era o único intocável no ataque da Seleção durante as Eliminatórias. Só havia sido poupado no reencontro com a Venezuela, atuando em todas as outras partidas. Se existia dúvidas sobre a sua presença no Maracanã, era apenas por uma lesão sofrida semanas antes, no Deportivo de La Coruña. Romário celebrava a possibilidade de reeditar a parceria com o velho amigo: “Ele também ficou muito contente com a minha convocação. Gostaria muito que o Bebeto jogasse, nos entendemos bem quando atuamos juntos. A maneira dele jogar facilita muito o meu estilo”.

A dupla entre Romário e Bebeto, aliás, carregava uma certa mística às vésperas do jogo decisivo. A grande campanha nos Jogos Olímpicos de 1988 ajudou a referendar a parceria entre os dois jovens. Contudo, o grande momento de ambos com a Seleção até então havia acontecido no mesmo Maracanã, contra o mesmo Uruguai. Em 1989, os atacantes jogaram absurdamente bem durante a Copa América. Sacramentaram a conquista sobre a Celeste, encerrando um jejum de 40 anos sem título brasileiro na competição. O gol do título foi anotado justamente pelo Baixinho, após uma boa trama entre Bebeto e Mazinho na ponta direita. Era o “caça-fantasmas” contra o enredo exaustivamente repetido sobre 1950.

O problema é que nem todos na Seleção viam Romário como o salvador. Outros atacantes haviam encarado as penúrias nas Eliminatórias e se achavam no direito de ganhar a vaga de Müller na linha ofensiva. Os jornais da época relatam a insatisfação de Evair e Valdeir, que participaram dos 4 a 0 sobre a Venezuela. O próprio Romário admitia entender os companheiros – afinal, sua insubordinação havia sido até maior em Porto Alegre. Mas bastou um treino para ficar claro quem jogaria. A três dias do compromisso no Maracanã, titulares e reservas se encararam na Granja Comary. Goleada da equipe de colete por 6 a 1, com três gols do Baixinho e outros dois de Bebeto. Depois disso, não tinha como questionar as condições.

Seria uma ocasião especial também para o Maracanã. Após o incidente ocorrido na final do Campeonato Brasileiro de 1992, que deixou três mortos e dezenas de feridos após a queda de uma grade no anel superior, o estádio passou por amplas reformas e manutenções. O gigante de concreto voltou a receber jogos no início de 1993, mas passaria mais alguns meses fechado para a conclusão das obras. O duelo contra o Uruguai acabava sendo um grande evento para sacramentar a nova fase do estádio, após mais de três anos sem um jogo da Seleção por lá. O total de pagantes passou dos 101,5 mil, em arquibancadas ebulindo para a ocasião histórica.

Parreira manteve a base do time que vinha disputando as Eliminatórias. Taffarel era o goleiro, apesar das críticas. A defesa tinha Jorginho, Ricardo Rocha, Ricardo Gomes e Branco. Mauro Silva era praticamente unanimidade na cabeça de área, acompanhado por Dunga. Zinho e Raí caíam pelos lados do campo, com a faixa de capitão ao são-paulino, já questionado por seu rendimento baixo. E na frente, a imortal dupla formada por Bebeto e Romário. Na véspera do jogo, nada de noitada ao camisa 11. Chegou a ser flagrado indo a uma igreja de São Conrado, acompanhado apenas por um segurança, para fazer orações antes do duelo decisivo.

Ildo Maneiro, por sua vez, escalava o Uruguai de maneira defensiva, tentando arrancar um empate. O sistema defensivo era reforçado. Ainda assim, nada que permitisse aos brasileiros se descuidarem da excelente linha de frente. Enzo Francescoli se encarregava da criação. Já na frente, a dupla formada por Rubén Sosa e Daniel Fonseca, ambos em ótima fase na Itália. Enquanto Sosa tinha sido artilheiro da Internazionale vice-campeã da Serie A em 1992/93, Fonseca eclipsava Careca como nova referência no ataque do Napoli.

Quando a bola rolou, porém, só um time jogou no Maracanã. Diante da pressão do Brasil, Romário infernizava a defesa uruguaia. Eram arrancadas, jogadas plásticas, finalizações perigosas. Deu chapéu e caneta nos marcadores. Quase anotou um golaço logo nos primeiros minutos, em tabela com Raí, mas o chute por cobertura caprichosamente esbarrou no travessão. Jorginho se tornava a principal válvula de escape do time, sempre perigoso pela direita. O problema era superar o goleiro Robert Siboldi. O charrua ia fechando o gol, colecionando milagres diante dos arremates insistentes do Baixinho e de Bebeto. Apesar dos 45 minutos de ampla superioridade do Brasil, o empate sem gols guardava os seus perigos, ainda mais depois que Luis Ramallo abriu o placar para a Bolívia em Quito.

No segundo tempo, Siboldi permanecia intransponível, com mais algumas boas intervenções. Os céus se abriram ao Brasil apenas aos 27 minutos. Jorginho lançou Bebeto pela ponta direita. O diante de um Uruguai que tentava se soltar mais em busca do resultado, o camisa 7 partiu em velocidade e, na lateral da área, fez um cruzamento alto. A bola perfeita para Romário se posicionar no bico da pequena área e desferir uma cabeçada certeira, rumo ao chão, passando por entre as pernas do goleiro adversário. Assim como na Copa América de 1989, uma cabeçada do camisa 11 permitia o carnaval tomar o Maracanã. Mas não acabaria por aí.

Aos 36 minutos, por fim, aconteceu o gol que garantiu o Brasil na Copa de 1994. A ótima jogada de Mauro Silva. A velocidade de Romário, o seu drible de corpo, a confirmação de que ele era mesmo o herói. De certa maneira, até lembrou o famoso lance de Pelé contra os uruguaios na Copa de 1970. Desta vez, a genialidade valeu o tento e a história. O camisa 11 não precisava provar mais nada. A torcida sentiu-se com razão, pelos pedidos tão insistentes. A semente do tetra acabava de germinar. A seleção brasileira começava a conquistar o título naquela partida.

Foram 32 finalizações do Brasil no jogo, contra apenas três do Uruguai. Dessas, 19 divididas apenas entre Romário e Bebeto. A equipe chegou aos 12 pontos nas Eliminatórias e confirmou a liderança do grupo. Terminou acompanhada pela Bolívia, que tomou o empate do Equador, mas festejou o retornou ao Mundial após 44 anos, com os 11 pontos conquistados. Ao Uruguai, restou lamentar sua ausência na Copa, depois de uma partida na qual não conseguiu viver qualquer sombra de 1950 no Maracanã.

Nas avaliações do Jornal dos Sports, quase todos os jogadores brasileiros receberam notas entre 6 e 7. Jorginho foi premiado com um 8 e Bebeto, reconhecido com o 9. Só Romário mereceu o 10. “Não poderia ser diferente. Fez tudo que havia planejado: foi destaque do jogo, fez dois gols e levou a galera ao delírio. Provou para os desafetos que é um dos melhores atacantes do mundo. O Brasil ‘romariou’ com sua ousadia e técnica demonstrada durante o jogo”, descrevia o periódico, que trazia na capa a manchete gritada pelas arquibancadas: “Ê ô, ê ô, o Romário é um terror”.

A unanimidade sobre o artilheiro era compartilhada também pelos grandes narradores da época. “Romário 2, Parreira 0”, bradava Osmar Santos na Rede Manchete. Luciano do Valle apontava na Bandeirantes que “seleção não é clube” e dizia que o camisa 11 merecia uma consideração especial depois do imbróglio em Porto Alegre. No SBT, narrando ao lado de Telê Santana, Osmar de Oliveira apontava que era um crime demorar tanto a nova chance ao goleador. Já Galvão Bueno era enfático na Globo: “O torcedor passou três meses pedindo Romário no ataque”. Eles tinham razão.

Na saída do Maracanã, enfim, Romário mandou a humildade às favas: “Cheguei na Seleção como salvador da pátria e salvei mesmo. Sabia que esse dia chegaria. Com esse time, venceremos a Copa do Mundo. Foi Deus quem me trouxe à Seleção. Agradeço a todos aqueles que acreditaram no meu futebol. Só lamento não ter conseguido devolver a Bebeto o presentão que ele me deu no primeiro gol”. Dedicou seus dois tentos às filhas recém-nascidas de dois amigos da Vila da Penha. E como se a alegria já não bastasse, o atacante recebeu sua boa notícia no dia seguinte: seu filho havia nascido em Barcelona. “Pena que o Romarinho não tenha esperado mais um dia para nascer. Gostaria muito de estar lá, ao lado da Mônica. Mas não há de ser nada, amanhã já estarei com eles. E vou curtir muito. Quem sabe ele acaba se transformando também num artilheiro?”, disse no embarque de volta à Espanha, emocionado.

Parreira, por sua vez, celebrava o resultado e desabafava. “Mostrei a todos que não sou um técnico teimoso e intransigente. Tenho apenas minhas teorias e meus conceitos. Deles eu não abro mão. Deus trouxe Romário na hora certa”, apontava. Já Zagallo garantia que o Baixinho foi chamado no tempo correto e que a ausência foi importante para dar um choque de realidade. De qualquer maneira, não foi isso que afastou os casos de indisciplina. Antes do jogo do Uruguai, por exemplo, Müller e Válber foram cortados por deixarem a concentração quando deveriam realizar tratamento médico. Só o atacante esteve no Mundial, como reserva.

“Não foi uma grande atuação, foi uma consagração. Tudo que Romário precisava fazer para sair do Maracanã como herói do jogo ele fez: dribles espetaculares, um lençol antológico, diabólicas arrancadas para o gol, uma bola na trave, outra no peito do goleiro Siboldi e, não satisfeito, decidiu o jogo com dois golaços”, descrevia João Máximo, em bela crônica na Folha de S. Paulo. “Claro, há muito de drama na atuação de Romário. Mal comparando, parece até um filme cuja história se arrasta por mil peripécias até chegar ao final feliz. Romário não convocado, Romário exigido pela torcida, Romário banido, Romário para sempre fora da Seleção. Em determinado momento, o enredo muda de rumo. E o herói entra em cena como deve: para uma decisão em dia de Maracanã cheio. Que melhor final o filme poderia ter?”.

“O malandreco da Vila da Penha, sorriso sonso, jeito de quem está permanentemente zombando do mundo, foi o herói que a seleção brasileira precisava ter. É uma boa seleção, por mais que se discorde deste ou daquele jogador. Mas é uma seleção sisuda, sóbria demais. Romário deu a ele aquele ar moleque que as melhores seleções brasileiras sempre tiveram: Leônidas, Zizinho, Garrincha. Quem mais, nesse time de Parreira, ousaria aplicar uma série de balõezinhos num punhado de uruguaios mal encarados, que lutavam desesperadamente para não ficarem de fora da Copa? Romário, o garoto-problema, o irreverente, o pivete travestido de craque, consagrou-se ontem no estádio que gritou repetidas vezes seu nome. Há muito tempo o Maracanã não vivia momentos tão iluminados. Muitos de nós tínhamos até esquecido que uma das marcas do futebol brasileiro é o toque de gênio, suas individualidades, a capacidade inventiva de seus craques. Desta vez, o torcedor concorda com Parreira: foi Deus quem trouxe Romário”, concluiu.

Há um toque de realismo mágico em toda essa história envolvendo Romário. Talvez pareça restrita à mente do mais hábil dos escritores, entre tantos elementos fantásticos. Exatamente por isso, por ser de verdade, é que provoca tamanho fascínio. É o que explica também a grandeza do Baixinho na Seleção. A Copa do Mundo de 1994 seria o complemento perfeito à alegria surreal que já se concretizara no Maracanã.

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