Trivela

Brasil

Por Leandro Stein, da Trivela, e Emmanuel do Valle, dono do Flamengo Alternativo

Até meados da década de 1990, os clubes brasileiros se acostumaram a disputar torneios amistosos no exterior. Uma prática comum, não apenas para ganhar taças e dinheiro, mas também para medir forças com as grandes equipes de outros países e aumentar a reputação internacional. Nos últimos anos, as excursões voltaram a ser comuns, mas com uma frequência distante de décadas atrás, quando algumas vitórias valiam tanto quanto títulos. Façanhas que povoam a história da maioria dos times de massa do Brasil, assim como outros menores.

Na última semana, demos como aperitivo um mapa com os torneios de pré-temporada no exterior mais disputados pelos times brasileiros. E, atendendo a pedidos, desta vez falamos um pouco mais dos jogos que fizeram a história dessas competições mencionadas e promoveram a fama dos brasileiros. A lista pegou um jogo por equipe, privilegiando tanto a diversidade entre os times mencionados como a narrativa por trás dos confrontos. Além disso, como sequência da outra matéria, não foram consideradas partidas por excursões ou por taças internacionais disputadas no Brasil. Confira:

AMERICA 1 x 0 ATLÉTICO DE MADRID (Villa de Madrid, 1977)

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Em seu giro pela Europa durante o mês de agosto de 1977 o time carioca – que tinha um bom elenco, com o goleiro País, o zagueiro Alex, os meias Léo Oliveira e Bráulio e o atacante César, entre outros – disputou dois torneios tradicionais: o Costa do Sol, em Málaga, e o Villa de Madrid. No primeiro, o time acabou em terceiro lugar, após perder pelo placar mínimo para o Barcelona de Neeskens e Asensi (com gol de pênalti muito contestado de Heredia) e vencer a seleção do Japão por 4 a 2. No outro, embora também não tenha levado a taça, conseguiu um feito: foi o único brasileiro, dentre os oito grandes clubes que participaram, a derrotar o organizador Atlético de Madrid dentro do Vicente Calderón (na época, chamado de Manzanares). Foi pela semifinal da competição, com vitória por 1 a 0, gol de Léo Oliveira, contra um rival que tinha em campo o zagueiro brasileiro Luís Pereira e os atacantes argentinos Ayala e Rubén Cano, além de espanhóis como o goleiro Reina e o meia Leal. Na decisão, porém, o time rubro entrou muito nervoso, mas mesmo assim vendeu caro a derrota de 3 a 2 para o Milan de Albertosi, Capello e Rivera. Seis anos depois, o America voltaria à Europa e faturaria o Torneio Costa Dorada, em Tarragona, batendo o Valencia e o Dundee United.

ATLÉTICO-MG 3 x 0 PARIS SAINT GERMAIN (Torneio de Paris, 1982)

Um dos clubes brasileiros mais bem sucedidos nos torneios europeus de verão, o Atlético-MG tem como um de seus grandes momentos a vitória categórica sobre o Paris Saint Germain em pleno Parque dos Príncipes pelo Torneio de Paris em agosto de 1982. Diferentemente do papão do futebol francês nos anos 90 e do milionário elenco atual, o PSG na época não contava com elenco tão expressivo, mas tinha bons jogadores como o volante e capitão Dominique Bathenay e o meia Luis Fernandez, além de estrear naquele dia o meia argentino Osvaldo Ardiles, emprestado pelo Tottenham em virtude da Guerra das Malvinas. Porém foi o Galo de João Leite, Nelinho, Luizinho, Cerezo, Reinaldo e Éder quem mandou no jogo desde o início. Logo no primeiro tempo abriu 2 a 0, com Heleno aproveitando o rebote da trave e Éder encobrindo o goleiro Baratelli. Na etapa final, Reinaldo fintou dois zagueiros e tocou rasteiro no canto para fechar o placar. Na decisão, o título veio com vitória de 1 a 0 sobre o Dínamo de Zagreb, novamente com gol de Rei atleticano.

ATLÉTICO-PR 1 x 0 DINAMO KIEV (Marbella Cup, 2013)

Durante os últimos anos, o Atlético Paranaense mantém parcerias no Leste Europeu para ceder os seus jogadores. E o contato tornou até natural a participação do Furacão na Marbella Cup, torneio de intertemporada na Europa disputado tradicionalmente por clubes de países com inverno rigoroso. Diante da falta de interesse sobre o estadual, a ida à competição espanhola se tornou um caminho para preparar o elenco rubro-negro para a temporada. Em 2013, veio o maior sucesso. Com destaques como Weverton, Manoel e Marcelo Cirino, os atleticanos acabaram com a taça. Para tanto, golearam o Ludogorets na primeira fase por 6 a 2, antes de cruzarem com o Dynamo Kiev na semifinal. Os ucranianos optaram por rodar o elenco e escalaram um time misto – incluindo Marco Rubén, Domagoj Vida e Danilo Silva. Os alviazuis até fizeram um jogo duro contra os paranaenses, mas acabaram derrotados por 1 a 0. Em tarde na qual os goleiros se sobressaíram, Felipe marcou de pênalti o gol da vitória. Por fim, na decisão, o Furacão sacramentou a conquista derrotando o Dinamo Bucareste, também por 1 a 0. Em 2015, o Atlético voltou à Marbella Cup, mas perdeu a taça no saldo de gols para o Lokomotiv Moscou.

BANGU 1 x 1 (4×3) BAYER LEVERKUSEN (President’s Cup, 1984)

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O Bangu já vivia a bonança financeira dos bons times montados por Castor de Andrade. Em 1983, os alvirrubros chegaram ao triangular final do Campeonato Carioca. Boa forma confirmada na excursão à Coreia do Sul, onde disputaram a President’s Cup. No início de maio, os banguenses já haviam feito uma viagem à América Central, enfrentando clubes e seleções. E, no fim do mês, o time partiu para o Extremo Oriente, trazendo o caneco. Na primeira fase, o Bangu sobrou. Goleou a Tailândia, além de empatar com os sul-coreanos do Hallelujah e vencer os belgas do Cercle Brugge. Já a grande vitória veio na semifinal, diante do Bayer Leverkusen. Os Aspirinas contavam com vários jogadores históricos no time, incluindo Thomas Hörster e Rüdiger Vollborn, que seguem como recordistas em jogos. Entretanto, a grande atração era Cha Bum-Kun, o maior jogador sul-coreano de todos os tempos. E justamente ele quem abriu o placar contra o Bangu, logo aos cinco minutos. Todavia, os cariocas também tinham os seus talentos e, pressionando, buscaram o empate graças a um chutaço de Marinho. Só que a superioridade do brasileiros não pesou no tempo normal. A vitória só saiu nos pênaltis, graças às duas cobranças defendidas pelo ídolo Gilmar, enquanto Perivaldo, Paulinho Criciúma, Ado e Marinho converteram. Na decisão, o Bangu garantiu o título vencendo o Hallelujah (uma das bases da seleção local) por 2 a 1, com dois gols de Paulinho Criciúma.

BONSUCESSO 1 x 0 RIVER PLATE (Conde de Fenosa, 1975)

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Foi com surpresa que se recebeu no meio esportivo do Rio de Janeiro a notícia, em meados de 1975, de que o pequeno Bonsucesso, nono colocado no recém-encerrado Campeonato Carioca, excursionaria pela Espanha disputando em La Coruña o Torneio Conde de Fenosa, um triangular que também incluía o Deportivo local, na época um clube de segunda divisão espanhola, e o estelar River Plate de Fillol, Perfumo, J. J. López, Beto Alonso, Pedro González e Oscar Más. No fim de agosto, o Rubro-Anil da Leopoldina embarcou desacreditado e na estreia confirmou os prognósticos, perdendo para o Deportivo por 1 a 0, ainda que o gol dos galegos tenha sido marcado só aos 41 minutos da etapa final. Contra o River, treinado por Ángel Labruna e que acabara de conquistar o Torneio Metropolitano argentino e venceria ainda o Nacional no mesmo ano, a expectativa era ainda pior. Mas não foi o que aconteceu. Com os portenhos dispersivos no ataque, apesar do maior volume de jogo, o Bonsucesso se defendeu bem, controlou o meio-campo e conseguiu levar um empate sem gols até o fim do primeiro tempo. Na etapa final, Oliveira completou uma bela trama de todo o ataque do time suburbano e abriu o placar. A partir daí, o River começou a martelar o gol carioca, mas parou no arqueiro Pedrinho, que garantiu a vitória em atuação excepcional. Na última rodada do triangular, o River venceu o Deportivo La Coruña por 2 a 1, mas o regulamento deu o título aos donos da casa, após o tríplice empate.

BOTAFOGO 4 x 4 (3×0) JUVENTUS (Teresa Herrera, 1996)

Poucas vezes o Torneio Teresa Herrera teve um nível tão alto quanto naquela edição de 1996. Nas semifinais, Juventus e Ajax reeditaram a final da Champions de três meses antes. E, assim como em Roma, os italianos triunfaram, mas desta vez com um massacre: 6×0, com direito a três gols de Padovano. Já do outro lado da chave, o Deportivo de La Coruña não fez as honras de anfitrião e sentiu a força do Botafogo, campeão brasileiro. Dentro do Riazor, Beguiristáin abriu o placar para os galegos, mas Bentinho e Túlio buscaram a virada para o Botafogo por 2 a 1. A decisão, por sua vez, contou com um verdadeiro épico. Como nenhum dos times havia levado uniforme reserva, os cariocas acabaram emprestando as camisas do Depor. Peitaram os campeões europeus de igual para igual. A Velha Senhora não contou com o time completo, mas alinhou vários ídolos para a final: Del Piero, Deschamps, Vieri, Jugovic, Ferrara, Peruzzi, entre outros. Enquanto isso, os botafoguenses contavam com a base do time campeão nacional no ano anterior. Como naquela conquista, Túlio arrebentou. Marcou um dos gols no empate por 2 a 2 no tempo normal, em que os italianos contaram até com uma tabela entre Del Piero e Vieri, antecipando o que viria na Azzurra anos depois. Já na prorrogação eletrizante, enquanto Amoruso completou sua tripleta, o fanfarrão artilheiro também fez mais dois, decretando o empate por 4 a 4 no último minuto. E, nos pênaltis, o eterno Wagner saiu como herói, defendendo as cobranças de Amoruso e Di Livio.

CORINTHIANS 2 x 1 BARCELONA (Costa del Sol, 1969)

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A decisão do Torneio Costa do Sol de 1969 foi uma verdadeira prova de resistência física. O Barcelona, que havia batido o River Plate na semifinal, abriu o placar logo no começo do jogo com o meia Zaldúa, de cabeça, escorando centro de Rexach. Zaldúa, porém, se lesionou minutos depois e teve que deixar o campo. A alteração forçada abriu um buraco entre a defesa e o meio-campo azulgrana, o qual o Corinthians, que havia batido o dono da casa Málaga na fase anterior, não tardou a aproveitar, empatando aos 34 minutos com Bené. O empate em 1 a 1 persistiu até o fim do tempo normal e o jogo foi para uma prorrogação tensa, na qual nenhum dos times quis arriscar. Sem novos gols, as equipes partiram para mais um tempo suplementar de dez minutos, numa espécie de “morte súbita”… e nada. Também não houve alteração no placar no segundo tempo suplementar de dez minutos. Até que logo no início do terceiro, após 142 minutos de futebol, quando os jogadores já se arrastavam em campo, Bené arrematou um passe de Tião vencendo o goleiro Reina e pôs fim à agonia.

CORITIBA 5 x 2 VALENCIA (Torneio de Murcia, 1969)

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Uma das mais marcantes excursões do Coxa à Europa aconteceu em 1969, entre o fim de julho e o começo de setembro, com 12 partidas disputadas na Alemanha Ocidental, Áustria, França, Bulgária, Holanda (com direito a empate por 1 a 1 com o Feyenoord, campeão europeu no ano seguinte), Bélgica e Espanha. As duas últimas delas valeram pelo Torneio de Múrcia, disputado também pelo time da casa e o Valencia, em formato de triangular. Derrotado pelo Murcia por 2 a 1 na rodada de abertura, o Alviverde se recuperou e encerrou brilhantemente seu giro europeu, ao golear por 5 a 2 um bom time do Valencia (do lateral Sol, do meia Claramunt e do veterano ponta Collar, todos com passagem pela seleção). Os Ches tiveram domínio territorial no primeiro tempo, mas em duas escapadas nos contra-ataques os paranaenses marcaram com o ponta-esquerda Edson, aos 10, e com o centroavante Kosilek, aos 19. Na etapa final, a vantagem foi ampliada logo aos sete minutos por meio do ponta-direita Passarinho. O Valencia reagiu imediatamente e marcou duas vezes em dois minutos com Ansola, de cabeça, e Collar, em jogada individual. Mas aos 20, Kosilek (que seria expulso três minutos depois) marcaria o quarto para tirar o Coxa do sufoco. E aos 38, Passarinho faria o quinto, completando a goleada.

CRUZEIRO 3 x 0 STOKE (Teresa Herrera, 1975)

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De um lado, um dos maiores chutadores do futebol mundial, Nelinho. Do outro, um dos maiores goleiros, o inglês Peter Shilton, ainda caminhando para seu auge, mas já considerado o sucessor de Gordon Banks no clube e na seleção. O tira-teima entre os dois monstros aconteceu no Teresa Herrera de 1975, quando o Cruzeiro enfrentou o Stoke City pelas semifinais. No primeiro tempo, o arqueiro foi buscar com categoria e elasticidade três bombas no ângulo do lateral cruzeirense. Mas o duelo começo u a ficar favorável ao brasileiro quando Todd cortou um cruzamento de Joãozinho com a mão dentro da área e o árbitro marcou pênalti. Nelinho 1 a 0. Na etapa final, Dirceu Lopes foi derrubado por um zagueiro na área. Pênalti, e Nelinho 2 a 0. No último minuto ainda houve tempo para Nelinho também acertar o gol de mais longe, cobrando falta do bico da área e vencendo Shilton pela terceira vez. Na decisão do torneio, porém, o Cruzeiro acabou derrotado nos pênaltis pelo Peñarol, após um dramático empate em 3 a 3 no tempo normal e prorrogação.

FLAMENGO 2 x 1 REAL MADRID (Palma de Mallorca, 1978)

flamengo

Uma das vitórias mais épicas de um time brasileiro nestes torneios aconteceu em agosto de 1978 quando o Flamengo, desfalcado de Zico, decidiu o troféu de Palma de Mallorca contra o Real Madrid, campeão espanhol. No primeiro tempo, não houve contestação: o Flamengo dominou o jogo, abriu 2 a 0 com gols de Cláudio Adão e Cléber e poderia ter feito outros, se o árbitro não tivesse, por exemplo, marcado impedimento inexistente de Cléber, quando o atacante estava prestes a abrir o placar. Ainda na primeira etapa, o dinamarquês Jensen quase acertou a cabeça de Manguito com uma bicicleta desastrada dentro da área. Mas Alsocúa Sanz apitou tiro livre indireto contra o Flamengo.  A etapa final, no entanto, foi um escândalo. Aos dez minutos, o goleiro Raul pulou para cortar um cruzamento e se chocou com o atacante Aguilar. E o árbitro marcou pênalti para o Real, que o próprio Aguilar converteu. Após a cobrança, Eli Carlos reclamou e foi o primeiro a receber o vermelho.Depois, o juiz ainda botaria para fora Toninho, que argumentara sobre uma marcação de escanteio, e Cléber. Não satisfeito, também expulsou o técnico Cláudio Coutinho, o supervisor Domingo Bosco e todo o banco de reservas carioca. E não parou por aí: esticou o jogo até os 50 minutos (num tempo em que raramente os jogos ultrapassavam os 46), sob o pretexto de descontar as paralisações. Com oito em campo, o Flamengo resistiu chutando pra todo lado. No último lance, Juanito ainda conseguiu encobrir Raul, mas Cláudio Adão apareceu em cima da linha para salvar. Quando o apito final soou, a própria torcida espanhola se levantou para aplaudir os campeões rubro-negros. Dezenove anos depois, os dois clubes se reencontrariam no mesmo torneio, e o Fla venceria novamente, desta vez por 3 a 0 (gols de Maurinho, Lúcio e Sávio) diante dos galáticos merengues que contavam com Cañizares, Panucci, Seedorf, Raúl, Suker e Mijatovic.

FLUMINENSE 3 x 1 SELEÇÃO DA EUROPA (Torneio de Paris, 1976)

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A fama da Máquina Tricolor se eternizou no futebol brasileiro. Ainda que não tenha registrado maiores feitos em torneios nacionais, o timaço liderado por Rivellino ergueu duas taças do Carioca. E ratificou a fama especialmente por aquilo que fez nos torneios no exterior. Com um futebol vistoso, os tricolores chegaram a derrotar o Bayern de Munique de Beckenbauer, Maier, Gerd Müller e Rummenigge num amistoso no Maracanã, em 1975. Todavia, outro feito impressionante veio no Torneio de Paris, disputado em junho de 1976. Entre os craques que embarcaram para a França estavam Carlos Alberto Torres, Doval, Dirceu e Paulo César Caju. No triangular realizado no Parque dos Príncipes, o Flu estreou derrotando o PSG por 2 a 0, com dois tentos de Rivellino. Já o troféu veio graças ao triunfo sobre a Seleção da Europa, formada por jogadores premiados pela France Football. Rob Rensenbrink, Billy Bremner, Dudu Georgescu, Joe Jordan e Didier Six se punham como nomes de maior destaque daquele combinado. Que acabou engolido pelo Flu, por 3 a 1, com show de Caju e Rivellino. No primeiro gol, Paulo César chegou a fintar quatro jogadores, antes de encobrir o goleiro Petrovic. Ao fim, 50 mil aclamaram os cariocas, que receberam uma taça no formato da Torre Eiffel.

GRÊMIO 2 x 1 BAYERN DE MUNIQUE (Torneio de Roterdã, 1985)

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A vitória mais importante da história do Grêmio acontecera dois anos antes, contra o Hamburgo, grande potência do futebol alemão na época. Porém, em 1985, os tricolores tiveram o gosto de alcançar um feito contra outra força da Bundesliga. Naquela época, os bávaros começavam a montar um de seus times mais célebres, que conquistou o tricampeonato alemão e conquistou cinco títulos da liga em seis temporadas – embora não tenha repetido o sucesso na Champions. Treinado pelo lendário Udo Lattek, o time contava com Pfaff, Lerby e Augenthaler – Matthäus já estava no time, mas não chegou a participar daquele jogo. Mas o Bayern não foi páreo ao Grêmio de Rubens Minelli, queescalou Renato Gaúcho, Mazaropi, Valdo e Bonamigo. Durante a semifinal do Torneio de Roterdã, os gremistas já haviam vencido o anfitrião Feyenoord, do ícone Johnny Rep. Na decisão, os tricolores precisaram de apenas 28 segundos para abrir o placar, com Osvaldo. Um gol contra de Augenthaler aumentou a vantagem. Nos minutos finais, Michael Rummenigge diminuiu e os bávaros deram pressão, com direito a bola na trave. Pararam na raça dos brasileiros, que terminaram o jogo aplaudidos pela torcida holandesa.

INTERNACIONAL 0 x 0 (4×1) BARCELONA (Joan Gamper, 1982)

Contratado pouco antes da Copa do Mundo de 1982 pela soma recorde (na época) de US$ 7,6 milhões, Diego Maradona faria sua estreia no Camp Nou como jogador do Barcelona em agosto, no tradicional Troféu Joan Gamper, disputado anualmente desde 1966. O adversário era o Internacional, que apesar de contar com bons jogadores como Benítez, Mauro Galvão (jogando no meio-campo) e o uruguaio Rubén Paz, não vivia bom momento – havia sido eliminado no Brasileiro antes mesmo das oitavas de final. Naturalmente, o Barcelona, que contava ainda com o meia alemão Bernd Schuster, era o favorito a conquistar o torneio e seu principal adversário parecia ser o Colônia alemão, que enfrentaria o Manchester City na outra semifinal. Mas o que se viu naquele primeiro confronto foi o Internacional amarrando muito bem o jogo, não dando espaços e ainda ameaçando em contragolpes perigosos com Silvinho e Rubén Paz. Após o empate sem gols, veio a decisão nos pênaltis: Quini chutou na trave, Benítez defendeu a cobrança de Alesanco, o Inter converteu suas quatro cobranças e avançou à final. Na decisão improvável, o Inter derrotou o Manchester City por 3 a 1 e entrou para a história como único clube brasileiro a conquistar o prestigioso torneio.

OPERÁRIO-MS 4 x 3 PSV (President’s Cup, 1982)

Antes do Bangu, outros clubes brasileiros já haviam feito história na insólita President’s Cup, disputada na Coreia do Sul. Mas a vitória mais expressiva foi a do Operário de Campo Grande-MS – clube que entre o fim dos anos 1970 e começo dos 1980 costumava fazer boas campanhas no Campeonato Brasileiro, mas hoje tenta a duras penas recuperar a força no estado. Em 16 de junho de 1982, o Galo entrou em campo para enfrentar nada menos que o PSV Eindhoven pelas semifinais do torneio. Do lado holandês, vários jogadores com experiência de seleção, como Piet Wildschut, Jan Poortvliet, Ruud Geels, Jurrie Koolhof e os irmãos René e Willy van de Kerkhof. Já o time sul-matogrossense, treinado pelo ex-goleiro Carlos Castilho, tinha como grande destaque o meia Arturzinho, revelado pelo Fluminense e que faria longa carreira por vários clubes brasileiros, especialmente no Bangu. E foi exatamente o “Rei Artur” quem comandou a vitória histórica. O Operário saiu na frente com gol de Aluísio no primeiro tempo. Na etapa final,  ampliou aos 15, René van de Kerkhof descontou um minuto depois, mas de novo Arturzinho marcou o terceiro, aos 22. Com o gol do ponta Baianinho, aos 28, o Galo chegou a abrir 4 a 1, mas outra vez René van de Kerkhof e depois Geels, perto do fim do jogo, reduziram a vantagem. Na decisão, o Operário empatou sem gols com a seleção sul-coreana e as duas equipes dividiram o título.

PALMEIRAS 2 x 0 BARCELONA (Ramón de Carranza, 1974)

O Torneio Ramón de Carranza de 1974 valia por uma disputa entre paulistas e catalães. Em uma semifinal, o Santos em seus últimos meses com Pelé enfrentava o Espanyol. Na outra, o Palmeiras cruzaria com o Barcelona de Cruyff e Rinus Michels, recém-consagrado campeão espanhol e que apresentava outro holandes, Johan Neeskens, como novo reforço. Em campo, no entanto, só deu Palmeiras. Com Luís Pereira controlando o ataque azulgrana e Ademir da Guia e Leivinha comandando as ações ofensivas, Leão não passou de um mero espectador privilegiado no primeiro tempo. Na etapa final, o Palmeiras abriu o placar em lance polêmico (Ademir, em posição de impedimento, foi derrubado pelo goleiro Mora e Leivinha converteu o pênalti), mas justo diante do domínio. Depois, Edu e Leivinha fizeram grande combinação pela ponta esquerda e a bola cruzou a pequena área para Ronaldo só escorar. Na decisão do terceiro lugar, o Barça se redimiu goleando o Santos por 4 a 1, mas a taça foi mesmo para São Paulo, com a vitória do Palmeiras sobre o Espanyol por 2 a 1 na final.

PORTUGUESA 6 x 3 WEST HAM (International Soccer League, 1965)

lusa

Em tempos nos quais o futebol ainda tentava conquistar o seu espaço nos Estados Unidos, a International Soccer League serviu como alternativa para gerar impacto. A competição levava times estrangeiros de renome ao país e tentava criar uma nova identidade junto às cidades. Em 1960, o Bangu conquistou a primeira edição, denominado como Houston Stars. Já dois anos depois, o America-RJ repetiu o feito. Já em 1965, o torneio viveu sua última edição. E a Portuguesa, mesmo sem ficar com a taça, conquistou uma vitória para marcar a sua história. O West Ham contava com um time notável, campeão da Recopa Europeia um ano antes. Não resistiu à vontade da Lusa de Félix, Jair Marinho e dos ex-ídolos do Flamengo Dida e Henrique Frade. Em duelo eletrizante, os verderrubros terminaram o primeiro tempo vencendo por 3 a 2. Já na segunda etapa, diante das grandes atuações de Dida e Aloísio, estabeleceram a goleada por 6 a 3 no placar. Os paulistas terminaram em segundo do grupo, sem conseguir a classificação para a final. Já o West Ham, pouco mais de um ano depois, cedeu três jogadores daquele time derrotado à seleção inglesa que disputou a Copa do Mundo: o capitão Bobby Moore, além de Martin Peters e Geoff Hurst, autores dos gols na decisão contra a Alemanha Ocidental.

SANTOS 4 x 2 SELEÇÃO DO URUGUAI (Copa Kirin, 1985)

Um dos torneios mais tradicionais do Extremo Oriente, a Copa Kirin mobilizou vários clubes brasileiros, especialmente na década de 1980. E o formato de disputa ainda misturava times europeus e seleções nacionais, provocando duelos curiosos. Em 1985, o Santos representou o país, derrotando no caminho West Ham, Yomiuri, Japão e Malásia Sub-23. Já a decisão, no Estádio Nacional de Tóquio, botou o Peixe frente à frente com o Uruguai. Os santistas haviam empatado com a Celeste na fase de classificação, mas em um duelo de menor importância. E um personagem fundamental foi Rodolfo Rodríguez. O titular da seleção, naquela ocasião, estava defendendo a meta alvinegra. Apesar dos sentimentos divididos, fez o seu trabalho. Terminou como um dos destaques na vitória por 4 a 2 de virada, em que Mirandinha e Zé Sérgio anotaram dois gols cada. O Uruguai, contudo, não contou com força máxima naquela ocasião. Dos 11 titulares, apenas o defensor Acevedo e o trio de ataque composto por Pato Aguilera, Da Silva e Cabrera esteve presente na Copa do Mundo do México, um ano depois. Mirandinha, que em 1987 se tornou o primeiro brasileiro no Campeonato Inglês, terminou na artilharia da competição, autor de oito gols.

SÃO PAULO 4 x 1 BARCELONA (Teresa Herrera, 1992)

A vitória por 2 a 1 sobre o Barcelona em Tóquio, com um gol monumental de Raí cobrando falta, deu ao São Paulo o seu primeiro título mundial. E os blaugranas já estavam avisados da qualidade do time de Telê Santana, diante da goleada que sofreram para os mesmos rivais quatro meses antes. No tradicional Teresa Herrera, o Tricolor sofreu para avançar nas semifinais, contra o Peñarol. Palhinha e Raí anotaram os gols no empate por 2 a 2, com a classificação confirmada nos pênaltis. Já a decisão colocou frente a frente os então donos da Champions e da Libertadores. Johan Cruyff não poupou forças, escalando sete jogadores que estariam em Tóquio, entre eles Ronald Koeman e Hristo Stoichkov. O São Paulo, por sua vez, repetiria oito titulares. Os catalães saíram em vantagem com Julio Salinas, mas Müller logo igualou. Já na segunda etapa, Maurício virou e a expulsão de Zubizarreta abriu o caminho para Raí determinar a goleada, com dois tentos. Para motivar a equipe, mais de três mil são-paulinos receberam seus jogadores no aeroporto. A imprensa, inclusive, já tratava aquele resultado como uma prévia do que poderia acontecer no Mundial, em dezembro.

VASCO 4 x 3 REAL MADRID (Torneio de Paris, 1957)

A primeira edição do Torneio Internacional de Paris teve valor especial. Afinal, um dos convidados para a competição organizada pelo Racing de Paris era ninguém menos do que o Real Madrid, então bicampeão europeu. E, junto com o Rot-Weiss Essen, campeão alemão de 1955, o Vasco completou a lista de participantes. Donos do título carioca, os vascaínos iniciavam naquele momento uma excursão pela Europa. Estrearam no torneio eliminando o Racing, com uma vitória por 3 a 1 que impressionou o público. Já na decisão, o reencontro com o Real Madrid, com o qual já havia cruzado por três vezes na Pequena Taça do Mundo de 1956 – com uma vitória para cada lado e um empate. Contudo, a fama dos merengues tinha se ampliado desde então, especialmente pela maneira como dominavam a Europa. Opulência que caiu ante os cruz-maltinos. Di Stéfano abriu o placar para os espanhóis, mas o Vasco respondeu triturando no ataque. Válter Marciano e Vavá viraram antes do intervalo, em grande exibição de Pinga, para delírio dos franceses. Já na segunda etapa, Mateos empatou pouco antes de uma enorme confusão envolvendo os jogadores. Mas a final estava nas mãos do Vasco, que balançou as redes mais duas vezes com Valter e Livinho, enquanto Kopa diminuiu. A exibição rendeu amplos elogios aos brasileiros por parte da imprensa europeia – a ponto de o jogo ser considerado como um dos motivadores para a criação do intercontinental, três anos depois.

VITÓRIA 1 x 5 REAL MADRID (Palma de Mallorca, 1997)

vitoria

Em sua excursão à Europa em meados de 1997, o Rubro-Negro baiano conquistou o Torneio Cidade de Valladolid, ao derrotar o time da casa. Mas sua partida mais lembrada naquele giro foi a derrota para o poderoso Real Madrid na decisão do terceiro lugar do troféu de Palma de Mallorca. O motivo? Foi nesse jogo que o clube e o futebol brasileiro foram apresentados a Dejan Petkovic. O Real, que vinha de derrota de 3 a 0 para o Flamengo, escalou reservas. Já o time baiano, que perdera a semifinal para o ascendente Mallorca por 1 a 0, contava com o experiente goleiro Zé Carlos, o lateral Russo, o volante Hélcio, o meia Preto Casagrande e o artilheiro Túlio. Levando a campo o mesmo time do jogo anterior, o Vitória sentiu o desgaste e ainda deu azar no gol contra de Russo logo no primeiro minuto. Aos nove, Dani recebeu passe de Zé Roberto e ampliou. E o mesmo Dani marcou o terceiro aos 37. Descartado pelo técnico Jupp Heynckes, Petkovic vinha sendo um dos condutores do triunfo madridista e brilhou ainda mais na etapa final, com gols aos cinco e aos 25 minutos. O atacante Evando descontou para os baianos que, se perderam o jogo, não desperdiçaram a viagem: com a grande atuação como cartão de visitas, o meia-atacante sérvio acabou assinando com o Leão. E o resto é história…

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